Morreu Marjane Satrapi, autora exilada de “Persepolis” e voz da resistência iraniana
A autora e cineasta morreu aos 56 anos no exílio, em França. Voz da denúncia da repressão no Irão, Satrapi destacou-se pelo persistente compromisso na defesa dos direitos das mulheres e da liberdade.
Marjane Satrapi
, 1969-2026
A autora e cineasta iraniana exilada Marjane Satrapi morreu, segundo anunciou a sua família num comunicado divulgado na quinta-feira. Tinha 56 anos. “Marjane Satrapi morreu de tristeza”, refere a nota, que associa a sua morte ao falecimento, pouco mais de um ano antes, de Mattias Ripa, produtor, ator e argumentista com quem era casada e que descrevia como “o amor da sua vida”.
Exilada em França desde 1994 e naturalizada francesa em 2006, Satrapi tornou-se uma das vozes mais influentes da diáspora iraniana graças à série autobiográfica “Persepolis”, na qual relatou a repressão política durante o regime do xá, a infância sob a República Islâmica e a dolorosa partida para a Europa.
A obra, distinguida em 2001 no Festival Internacional de Banda Desenhada de Angoulême, conheceu enorme projeção internacional e deu origem, em 2007, a uma adaptação cinematográfica realizada pela própria autora em conjunto com Vincent Paronnaud. O filme conquistou o Prémio do Júri do Festival de Cannes e dois prémios César.
Com um traço simples e imagens a preto e branco, Satrapi retratou a complexidade da sociedade iraniana e as transformações provocadas pela chegada ao poder do Aytatollah Khomeini em 1979.
Em 2003, lamentava os estereótipos sobre o seu país natal: “O Irão é uma ditadura, e uma ditadura não mostra tudo.”
A sua obra continuou a explorar a realidade iraniana em livros como “Broderies” e “Poulet aux prunes”, este último distinguido com o prémio de melhor álbum em Angoulême e posteriormente adaptado ao cinema.
Em 2024, coordenou o livro coletivo “Femme vie liberté”, inspirado no movimento de contestação desencadeado após a morte sob custódia policial de Mahsa Amini. A obra reafirmou o seu compromisso com a defesa dos direitos das mulheres iranianas.
O Presidente francês Emmanuel Macron prestou homenagem à artista, descrevendo-a como “uma criadora apaixonada pela liberdade” que transformou “uma infância iraniana numa fábula universal”. Também a fundação da Nobel da Paz iraniana Narges Mohammadi destacou o papel de Satrapi na defesa das mulheres e da sociedade civil iraniana.
Em 2025, Satrapi recusou receber a Legião de Honra francesa, criticando aquilo que considerava ser a atitude contraditória de França perante a repressão no Irão. Na altura, afirmou ter dificuldade em compreender a política francesa em relação ao país e lamentou as dificuldades enfrentadas por dissidentes, artistas e jovens iranianos na obtenção de vistos.
As suas últimas publicações nas redes sociais refletiam a dor causada pela morte do marido. Numa série de mensagens, escreveu simplesmente: “Perdi o amor da minha vida.”