“Pai, Mãe, Irmã, Irmão”: o novo tríptico familiar de Jim Jarmusch
O realizador norte-americano premiado em Veneza regressa com uma obra fragmentada que explora o isolamento e as heranças emocionais entre gerações, reunindo nomes como Tom Waits, Charlotte Rampling e Cate Blanchett.
Jim Jarmusch reafirma a sua identidade enquanto figura central do cinema independente norte-americano com a apresentação de “Pai, Mãe, Irmã, Irmão”. O novo projeto afasta-se das convenções narrativas tradicionais para se estruturar em três capítulos distintos, localizados em diferentes geografias: Estados Unidos, Irlanda e França.
Cada segmento funciona como um microcosmo independente, onde o cineasta volta a privilegiar a observação do quotidiano e a densidade das personagens em detrimento de grandes reviravoltas dramáticas. O foco de Jarmusch recai sobre a alienação física e psicológica dos laços entre pais idosos e filhos adultos, num registo que privilegia o instantâneo e a brevidade dos encontros.
No primeiro segmento, intitulado “Pai”, a ação decorre no nordeste norte-americano. Adam Driver e Mayim Bialik interpretam dois irmãos que visitam a figura paterna, encarnada por Tom Waits. A narrativa foca-se nas incertezas sobre o estado financeiro e o bem-estar do progenitor, recentemente viúvo.
A colaboração entre Jarmusch e Waits recupera uma cumplicidade antiga, que remonta a “Vencidos pela Lei”, de 1986, e reforça o percurso do músico enquanto ator. Waits, cuja carreira no cinema começou em 1978 com Sylvester Stallone e passou por várias obras de Francis Ford Coppola, assume aqui uma rara centralidade dramática.

O segundo capítulo desloca-se para Dublin. Em “Mãe”, Charlotte Rampling dá vida a uma escritora que aguarda o momento anual de reunião com as filhas, interpretadas por Cate Blanchett e Vicky Krieps. A distância, tema transversal à obra, manifesta-se aqui através das expectativas e do peso do legado artístico.
O filme encerra com “Irmã, Irmão”, em Paris. Indya Moore e Luka Sabbat personificam dois irmãos que, após a morte dos pais num acidente aéreo, regressam à casa de família. O confronto com o passado revela segredos e memórias guardadas, num ambiente de descoberta e luto.
Este regresso à estrutura de episódios é recorrente na filmografia de Jarmusch, que desde “Para Além do Paraíso”, em 1984, tem explorado as margens da sociedade e a cultura urbana. A obra que lhe valeu o prémio Camera d’Or de melhor primeira obra em Cannes, acompanha três jovens numa viagem de Nova Iorque à Florida. Antecedeu “Vencidos pela Lei” (1986), onde o realizador juntou Tom Waits, John Lurie e Roberto Benigni, focando-se na dinâmica improvável entre os fugitivos de uma prisão.
A exploração de géneros cinematográficos sob uma ótica minimalista prosseguiu com “Homem Morto” (1995), um western gótico protagonizado por Johnny Depp, onde a jornada espiritual se sobrepõe à ação.
Em 1999, Jarmusch transpôs o código de honra oriental para o contexto urbano em “Ghost Dog – O Método do Samurai”, com Forest Whitaker no papel de um assassino profissional ao serviço da máfia.
Já em “Só os Amantes Sobrevivem” (2013), subverteu o mito dos vampiros através de um casal interpretado por Tilda Swinton e Tom Hiddleston, que atravessa séculos em busca de arte e conhecimento.
Mais recentemente, em “Paterson” (2016), Adam Driver deu vida a um condutor de autocarros e poeta, num filme que celebra a beleza da rotina, enquanto em “Os Mortos Não Morrem” (2019), Jarmusch reuniu um vasto leque de colaboradores habituais para uma sátira social em forma de filme de zombies.

Jarmusch evidencia a sua profunda ligação à música tanto na escolha dos elencos como na construção das bandas sonoras. Natural do Ohio, mudou-se para Nova Iorque nos anos 1970, onde se integrou na efervescente cena cultural em torno do lendário CBGB, berço do punk e da new wave. Fundou a banda The Del-Byzanteens e, desde então, a música tornou-se inseparável da sua linguagem visual.
Ao longo das décadas, estabeleceu colaborações marcantes, nomeadamente com John Lurie, dos Lounge Lizards, e com Neil Young, autor da banda sonora do western “Homem Morto”. Mais recentemente, formou o grupo SQÜRL com Carter Logan e lançou cinco álbuns em parceria com o alaudista Jozef van Wissem, incluindo a banda sonora de “Só os Amantes Sobrevivem”.
Em “Pai, Mãe, Irmã, Irmão”, Jarmusch assume a composição da banda sonora em parceria direta com a artista germano-britânica Anika. Conhecida pelo seu estilo pós-punk e voz etérea, Anika colaborou na criação de paisagens sonoras minimalistas e experimentais que acompanham as personagens. O trabalho conjunto resultou num álbum que inclui versões despojadas de temas como “These Days”, de Jackson Browne, e “Spooky”, de Dusty Springfield, reforçando a atmosfera contemplativa que garantiu ao realizador a sua mais alta distinção no Lido de Veneza.