

Park Chan-wook revela projeto com 20 anos sobre a precariedade do emprego
"No Other Choice", sátira de Park Chan-wook, com a estrela de "Squid Game", Lee Byung-hun, expõe a insegurança económica e chega às telas após dificuldades em obter financiamento.
Park Chan-wook demorou duas décadas a levar ao ecrã o seu último filme, “No Other Choice”, mas o realizador sul-coreano disse na sexta-feira, em Veneza, que o tema central da história, a insegurança no emprego, é mais relevante do que nunca, à medida que as tecnologias avançam para o local de trabalho.
Park, que alcançou fama internacional com o thriller “Oldboy”, de 2003, confessou ter lutado durante anos para conseguir o financiamento para “No Other Choice”, uma sátira mordaz que mistura comédia jocosa com comentários sociais sombrios. Contudo, manteve a fé no projeto porque as pessoas continuavam profundamente ligadas ao seu enfoque na ansiedade económica.
“Todos temos um medo profundo da falta de emprego e da insegurança”, disse Park na conferência de imprensa que antecedeu a estreia do filme em competição no Festival de Veneza.
“No Other Choice” acompanha um experiente executivo da indústria do papel, interpretado por Lee Byung-hun, a estrela de “Squid Game”, que vê a sua vida desmoronar-se ao ser inesperadamente despedido.
Com a família a enfrentar ameaças de despejo e a qualidade de vida a desaparecer, o herói perturbado começa a eliminar potenciais rivais para um novo emprego, numa matança pontuada de humor negro.
O filme tem por base o romance de suspense e terror “The Ax”, de Donald E. Westlake, publicado em 1997. Park disse à Reuters que a atualização da história para o mundo de hoje tornou o seu pano de fundo, um local de trabalho automatizado e orientado para a IA, mais ressonante.
“Há vinte anos, não podíamos imaginar uma fábrica totalmente automatizada e controlada por IA”, afirmou o cineasta. “Talvez seja essa a razão pela qual demorei tanto tempo a realizá-lo.”
Para além de introduzir os últimos avanços tecnológicos, Park disse que também acrescentou um final mais ambíguo.
“Todos os esforços horríveis que (o protagonista) faz para proteger a sua família, sacrificando a sua própria humanidade, acabam por conduzir ao colapso (moral) da família”, acrescentou.
Park é um dos realizadores mais aclamados da Coreia e a equipa de atores que voou até uma Veneza tempestuosa para promover o filme disse que aparecer num dos seus filmes era um sonho profissional, mesmo que a sua abordagem meticulosa os levasse aos seus limites.
“Ele exige muito de nós, é muito exigente”, disse Lee.
Son Ye-jin, a estrela feminina, que viu a sua fama disparar graças ao papel na série televisiva “Crash Landing on You”, admitiu que inicialmente teve dificuldades com a direção meticulosa de Park.
“É tão pormenorizada que, por exemplo, ele dizia para dar mais ênfase a apenas uma sílaba, ou para andar de uma certa maneira… Mas à medida que as filmagens foram decorrendo, apercebi-me de que ele estava no certo e a minha atuação melhorou muito”, confessou a atriz.
Tanto Lee como Son foram saudados por fãs aos gritos quando passaram pela passadeira vermelha de Veneza, o que demonstra o quanto a cultura sul-coreana ressoa atualmente no Ocidente.
“Ver os fãs aqui em pessoa permitiu-me sentir em primeira mão o quanto o conteúdo K é amado, e isso deixa-me muito feliz”, disse Lee.
“No Other Choice” é um dos 21 filmes em competição pelo Leão de Ouro, que será entregue a 6 de setembro.
Foto: Jacopo Salvi, La Biennale di Venezia – Foto ASAC