Patrão do Canal+ confirma corte no financiamento por motivos políticos
Maxime Saada, reafirma que o grupo deixará de financiar produções de cineastas e produtores que prejudiquem a imagem da empresa, na sequência de protestos contra a influência do acionista Vincent Bolloré. A tomada de posição surge numa altura em que o operador assina um acordo de 980 milhões de euros para o investimento no cinema francês e europeu.
O presidente executivo da Canal+, Maxime Saada, confirmou que o grupo deixará de financiar filmes de cineastas e produtores que, no seu entender, prejudiquem a imagem da empresa.
A posição foi reafirmada poucos dias após o Canal+ ter assinado um novo acordo para investir 980 milhões de euros no cinema francês e europeu entre 2028 e 2032.
No Festival de Cannes, em maio, vários profissionais do cinema assinaram um manifesto contra o que classificaram como a “crescente influência da extrema-direita” no sector, numa referência ao empresário conservador Vincent Bolloré, principal acionista da Canal+.
Na altura, Maxime Saada declarou que o grupo deixaria de financiar filmes dos signatários da iniciativa. Perante as críticas, rejeitou a ideia de estar a criar uma “lista negra”. Questionado na terça-feira pela AFP, à margem da apresentação dos resultados financeiros da empresa, o responsável reiterou, contudo, essa posição.
“Não esqueço nada. Trata-se de 1% das pessoas que assinaram essa petição. Mantenho a minha posição: se houver pessoas que prejudiquem a imagem da Canal+, não financiaremos os seus filmes”, afirmou. Saada acrescentou que esse fator “será tido em consideração” e considerou que essa atitude “parece natural”. Ao mesmo tempo, garantiu que a empresa “nunca alterou, nem alterará, a sua política de diversidade do cinema francês”. Segundo o dirigente, o novo acordo de financiamento dá especial atenção “à diversidade, às primeiras obras, aos novos filmes, aos novos talentos e ao cinema de animação”.
A Canal+ afirmou, na segunda-feira, que o acordo permitirá ao grupo continuar a disponibilizar aos assinantes “os maiores filmes franceses, europeus e internacionais” seis meses após a estreia nas salas de cinema.
Maxime Saada mostrou-se satisfeito por a empresa manter esta vantagem competitiva, numa altura em que a cronologia de exibição continua a ser alvo de debate devido ao crescimento das plataformas de streaming, como a Netflix e a Disney+. “Existe uma pressão significativa de vários intervenientes para encurtar a cronologia de exibição, mas não quis ir mais longe porque considerei que isso poderia começar a criar problemas para as salas de cinema”, explicou.
Ao abrigo do novo acordo, a Canal+ investirá 190 milhões de euros por ano no cinema francês e europeu entre 2028 e 2030, valor que sobe para 205 milhões de euros anuais em 2031 e 2032.
É a primeira vez que um acordo desta natureza abrange um período de cinco anos. “Se queremos construir e desenvolver a nossa oferta, é preciso perspetiva e tempo. Por isso, sempre fui favorável a um acordo de longa duração”, justificou.
Questionado sobre o que permitiu concluir negociações que se arrastavam há vários meses, Saada respondeu que “os produtores estão a perceber que, no fundo, o ator mais interessado no financiamento do cinema e, de forma mais ampla, no futuro do cinema francês continua a ser a Canal+”.