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29 Out 2026

Patrick Stewart, que saiu da pobreza em Inglaterra para se afirmar como actor shakespeariano de renome e alcançar fama mundial como o erudito capitão Jean-Luc Picard, na série televisiva “Star Trek: A Nova Geração”, e o telepata Professor Charles Xavier, nos filmes “X-Men”, morreu aos 86 anos.

Stewart, distinguido com o título de cavaleiro em 2010 pela rainha Isabel II pelos seus contributos para as artes dramáticas, morreu em casa, em Los Angeles, segundo um comunicado publicado na sua conta na rede social X. “Anunciamos com enorme tristeza a morte de Sir Patrick Stewart, ontem, na sua casa em Los Angeles, acompanhado pela sua amada mulher, Sunny, após uma breve e dolorosa jornada com a doença de Alzheimer e demência com corpos de Lewy”, refere o comunicado.

Stewart começou a representar aos 18 anos e ganhou reconhecimento nos palcos como membro da Royal Shakespeare Company, a partir da década de 1960. No entanto, só alcançou fama junto do grande público aos 47 anos, quando foi escolhido para protagonizar “Star Trek: A Nova Geração”, série televisiva exibida entre 1987 e 1994, que deu continuidade à produção original dos anos 1960. O actor manteve-se em actividade até aos 80 anos.

“Make it so” (“Faça-se”) era uma das expressões mais frequentes da personagem Picard, quando ordenava a um subordinado que executasse uma instrução. Por vezes, recorria também à frase “Engage” (“Avançar”).

Stewart chegou a ponderar recusar o papel, depois de o seu amigo de longa data e também actor shakespeariano Ian McKellen o aconselhar a rejeitar “Star Trek” e a continuar a trabalhar no teatro. Acabou por aceitar e tornou-se uma das figuras mais acarinhadas pelos fãs e uma presença indispensável na lucrativa franquia de ficção científica. Interpretou Picard em 176 episódios, ao longo de sete temporadas, em vários filmes da saga e, mais tarde, na série de streaming “Star Trek: Picard”, cuja exibição começou em 2020, quando tinha 79 anos.

“À medida que as sete temporadas de “A Nova Geração” avançavam, a distinção entre Jean-Luc Picard e Patrick Stewart foi-se esbatendo, até se tornar impossível perceber onde terminava ele e começava eu. Muito daquilo em que acreditava e que sentia acabou por integrar a série”, afirmou Stewart ao jornal The Guardian, em 2022.

O actor também hesitou inicialmente em aceitar o papel do Professor X, o mutante que utiliza uma cadeira de rodas nos filmes “X-Men”, baseados na popular banda desenhada da Marvel. “Disse: “Olhem, sei que isto não é ficção científica, mas é fantasia, e já fiz isso.” Mas convenceram-me de que não seria como “Star Trek”, por isso aceitei. E, mais uma vez, provaram que eu estava errado”, contou ao The Guardian.

Patrick Stewart nasceu a 13 de Julho de 1940, em Mirfield, no condado inglês de Yorkshire. Cresceu na pobreza. O pai, que regressou da Segunda Guerra Mundial com problemas de alcoolismo e stress pós-traumático, exercia violência física sobre a mãe. Stewart recordou que, em criança, chegou a interpor o próprio corpo entre os pais para tentar protegê-la.

A representação tornou-se um “espaço seguro” durante a infância, depois de um professor lhe apresentar Shakespeare, quando tinha 12 anos. A obra em causa era “O Mercador de Veneza”. Começou a perder o cabelo aos 17 anos e ficou completamente calvo aos 19. Inicialmente, sentia-se constrangido com a situação, mas acabou por aceitá-la.

Criada por Gene Roddenberry, “Star Trek” apresentava uma visão optimista do futuro, em que a humanidade explorava o cosmos a bordo de naves capazes de ultrapassar a velocidade da luz e encontrava civilizações extraterrestres. A popularidade duradoura da série original e o êxito dos filmes que se lhe seguiram levaram Roddenberry a criar “A Nova Geração”.

Picard contrastava com o capitão James T. Kirk, interpretado por William Shatner na série original, uma personagem aventureira e, por vezes, involuntariamente caricata. Picard foi concebido como uma figura mais cerebral e disciplinada, embora por vezes pudesse parecer rígido, sem sentido de humor, ou excessivamente convencido de si próprio.

Stewart recordou que, nos primeiros tempos da série, era demasiado sério com os colegas de elenco. “Costumo contar a história de quando convoquei uma reunião com os principais membros do elenco e lhes disse que não éramos suficientemente disciplinados, que não devíamos brincar tanto no plateau e que tínhamos de levar tudo mais a sério”, afirmou à revista The New Yorker, em 2023.

“Um dos actores respondeu: “Oh, vá lá, Patrick, também temos de nos divertir.” Dei uma pancada na cadeira e disse: “Não estamos aqui para nos divertir.” Nunca me deixaram esquecer esse episódio. Ensinaram-me muito sobre a importância de descontrair e de ser mais espontâneo”, acrescentou.

O actor considerava também que a série tinha melhorado ao longo das temporadas, reconhecendo limitações na sua interpretação de Picard nos dois primeiros anos. “Achava que lhe faltava intimidade. Era muito autoritário, mas tinha poucas outras qualidades”, explicou, acrescentando que o seu trabalho evoluiu nas temporadas seguintes.

O episódio final, dividido em duas partes e marcado por uma narrativa que jogava com o tempo, poderá ter representado o melhor trabalho de todo o elenco.

Patrick Stewart recebeu o título de cavaleiro das mãos da rainha Isabel II, no Palácio de Buckingham, em 2010. Na altura, disse aos jornalistas que os seus heróis eram os actores britânicos Laurence Olivier, John Gielgud e Alec Guinness, também distinguidos com a mesma honra. “Estar entre eles é a maior distinção que recebi na minha carreira profissional”, afirmou.

Stewart casou-se três vezes e teve dois filhos. O terceiro casamento, celebrado em 2013, foi com a música norte-americana Sunny Ozell.

  • CINEMAX RTP c/Reuters
  • 29 de Outubro de 2026, 21:04

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