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26 Jan 2026

“Orwell: 2+2=5” é um documentário sobre George Orwell, o escritor inglês, autor do livro “1984”. O realizador Raoul Peck considera que o mundo atravessa momentos perigosos:

Penso que o mundo adormeceu um pouco há 30, 40 anos com falsas batalhas enquanto o resto do mundo ardia. Acreditámos que estávamos em democracia. Isso tem consequências. Tem consequências para as eleições e para a propaganda.

Ter-se-ia pensado que esta palavra teria desaparecido nas sociedades modernas. No entanto, é isso mesmo, a intoxicação. É isso que Orwell escreve. A ignorância é a força. A guerra é a paz. Na verdade, toda a própria linguagem é atacada. A história é atacada. Rescreve-se a história. A justiça, a inteligência e as universidades são atacadas.

Estamos num momento perigoso para as nossas sociedades e é precisa muita coragem, clarividência e humanidade também. Não se pode pensar que vai haver um milagre que fará com que tudo fique bem.

O cineasta do Haiti, Raoul Peck, realizou o filme numa época em que a distopia que o escritor inglês imaginou no livro “1984” está cada vez mais próxima da realidade:

É aquilo que Orwell descreveu, a que chama ‘toolbox’, todos os instrumentos deste tipo de regime. Nunca teríamos pensado que isso aconteceria hoje na América.

Pode-se imaginar uma ditadura num pequeno país. Mas não imaginávamos que acontecesse numa das sociedades em que pensávamos que a democracia estava mais solidamente ancorada. E aí, apercebemos de que a justiça é totalmente manipulada, a sociedade é totalmente aterrorizada e paralisada.

Essa é a realidade. Por que não a vemos? Por que continuamos a encontrar desculpas? Porque dizemos, ah, sim, mas ele vai parar. Ah, sim, mas ele vai longe demais. Mas em que momento se diz que Hitler foi longe demais? Certa altura, para mim, ser cidadão é tomar posição. Orwell diz isso. A neutralidade é uma posição política.

Se não se reagir, somos cúmplices. Estamos num momento de viragem importante. Se nada for feito, infelizmente, arriscámos todos a cair no abismo.

Em “Orwell: 2+2=5”, Raoul Peck parte do momento importante da vida de Orwell, em 1949, quando o escritor inglês terminou o livro “1984”. Ter acesso à obra completa permitiu ao cineasta perceber que não é ficção científica:

Fazer um filme sobre Orwell é um presente que surge sob a forma de ter acesso a toda uma obra. Muito rapidamente descobri o verdadeiro Orwell, que não era precisamente um escritor de ficção científica. Orwell falou do mundo que conhecia. Ele não previu o futuro. Escreveu sobre aquilo que viveu e aquilo que compreendeu e escreveu as regras dessa catástrofe que viveu durante a sua curta vida de 49 anos.

No filme conto um momento dramático da vida dele, quando tenta terminar o romance “1984”, que tinha aí uma base de partida. E o segundo trabalho que faço é revisitar toda a obra dele e todo o seu discurso, porque só há palavras de Orwell no filme.

Fui buscar tudo o que me parece essencial e fundamental e que possa permitir a todos entrar na sua obra e depois aprofundá-la. Ouvem as palavras, o escritor, o ator, porque significa Orwell, porque não é só uma voz-off. Não, é um ator que está numa performance que nos coloca de forma muito íntima com Orwell e que torna a palavra ainda mais forte.

O ator inglês Damian Lewis é a voz do escritor do documentário “Orwell: 2+2=5”. Raoul Peck reúne imagens de momentos marcantes no mundo, alguns antecipados por Orwell:

É preciso recriar todo um universo. Há locais que eram claros para mim. A Birmânia, Mianmar, pareciam evidentes. E a Índia era claro. A Ilha de Jura, também.

Pois há imagens sugeridas pelo próprio Orwell quando ele descreve, em “1984”, o que se passa no mar Mediterrâneo com os refugiados. Eu não inventei isso. As imagens de hoje refletem perfeitamente aquilo que Orwell tinha escrito.

Para mim, a dificuldade não era realmente imaginar as imagens. A dificuldade era fazer escolhas para que o filme não fosse datado. Queria fazer um filme que pudesse ser revisto daqui a 30 anos e que nos permitisse também não só distanciar, mas que cada um se pudesse ver lá dentro.

No filme aparece Trump. Está lá dentro. Sim, há Putin, há todos os outros ditadores, mas não é um filme sobre eles. É um filme que nos mostra como funciona esta máquina, como funciona a política, como a democracia está a ser desmontada, quais são os instrumentos que se utilizam, a palavra, os slogans, a publicidade, o culto da personalidade, etc. Toda a caixa de ferramentas usada por Orwell, que mostra no livro e é mostrada ao longo do filme e que permite agora a cada espectador saber interpretá-la segundo as suas vivências.

Como exemplo, Raoul Peck, refere as eleições em Portugal:

Em Portugal, relativamente às eleições, é importante que o cidadão se aproprie da sua história e faça escolhas informadas, porque é o seu destino que está em jogo. Não é um jogo, não há um ensaio geral. Não, estamos dentro, estamos na guerra, não há segundas oportunidades.

Portanto, para mim, que venho do Haiti, um país com uma tradição de ditadura, posso dizer-vos que este privilégio que têm de ir votar, é preciso pensar bem no que fazem.

  • Margarida Vaz
  • 26 Jan 2026 17:38

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