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20 Fev 2026

A ausência, a perda e o luto continuam presentes no cinema de Sandro Aguilar. São desafios para o cineasta que transporta esses temas para o filme “Primeira Pessoa do Plural”:

Quis trabalhar e aproveitar o processo de escrita, de trabalho com os atores, ou seja, trabalhei durante mais tempo e de forma um bocadinho mais profunda em toda a parte que tem a ver com esse trabalho de compreensão da história, dos personagens.

Portanto, isso tudo acabou por ficar incorporado e o filme acabou por ganhar características que os outros não têm, embora trabalhe alguns dos mesmos temas que os outros filmes trabalhavam, a ausência, a perda, coisas que não se conseguem filmar que, por outro lado, são bons desafios de cinema. É tentar filmar para lá do que a câmara mostra, sendo que não podemos inventar nada que a câmara não possa mostrar, não é?

Sandro Aguilar filma estados emocionais. Centra a história num casal com um filho, são eles o epicentro de um turbilhão de emoções:

O que eu mostro é o que pode acontecer, ou seja, a possibilidade de um acontecimento, ou os efeitos de um acontecimento. E por isso é que os filmes, se calhar, são um bocadinho diferentes. Todos os filmes estão orientados para mostrar a ação, o que está a acontecer no presente. E a minha ação é o sintoma de qualquer coisa que aconteceu, ou de qualquer coisa que pode acontecer.  Por eu estar a filmar esse intervalo é que, depois, as histórias ganham dinâmicas particulares. Neste caso é um casal numa espécie de labirinto emocional, uma espécie de vórtice.

Um casal, um filho, uma pequena estrutura familiar, uma ausência, um quarto vazio e como cada um daqueles personagens profundamente feridos conseguem inventar todos os dias a possibilidade de uma relação com o mundo, com os outros, e a possibilidade de uma existência. Acho que é isso que eles procuram todos os dias. Por isso acordam, têm o seu dia, adormecem. E há qualquer coisa de fragmentação que acaba por acontecer nesse processo, porque, através de um elaborado jogo de máscaras e de ocultações, vão tentando sobreviver.

Na busca de um escape para sobreviver à dor, as personagens recriam-se como se se tratasse de um sonho. Este é o segredo da narrativa de Sandro Aguilar:

Estou a filmar uma espécie de variação de possibilidade de um quotidiano daqueles personagens. Sendo que o principal problema que eles têm será habitar a sua condição. Habitar a verdade da sua condição. Por isso, inventam todo um sistema fantasmagórico de projeções e de possibilidades e vivem-nas enquanto é possível manter o feitiço.

Amanhece e depois anoitece. E quando anoitece há qualquer coisa que de repente se abate sobre os personagens. Quando eles se apercebem que aquele dia acabou e que a ilusão, de certa forma, acaba todos os dias. E há sempre a possibilidade de no dia seguinte, de alguma forma, outra invenção poder permitir continuidade.

Eu quebro um dos pressupostos base, se calhar, da física: a mesma pessoa não pode estar em dois sítios ao mesmo tempo. Aqui, não é bem assim. A lógica de construção do próprio filme deriva mais de uma estrutura onírica de sonhos e de pesadelos.

De construções desse género em que as coisas podem ser mais do que uma, ou podem ter causas e efeitos não lineares. Daí, se calhar, alguma da originalidade da estrutura narrativa que o filme também propõe e o caráter um pouco hipnótico que o filme vai ganhando.

Construir o filme como se fosse um sonho, em “Primeira Pessoa do Plural”, Sandro Aguilar sai de uma estrutura linear e lança dúvidas. Quem está a sonhar? E quem sonha o quê?

Não é muito claro quem inventa o quê. E isso vai acontecendo até o fim. Mesmo quando se fala da ideia do luto, da perda, é verdade que, depois, à medida que vão caindo, há um que finge que está morto. Há outro que sai da terra. Há outro que come terra desde o início. Há outro que olha com os óculos que têm uns olhos falsos que não são dele. Há uma rapariga que aparece lá que não se sabe quem é. 

Existe uma série de coisas que vão desconstruindo a linearidade de contar esta história. Há pequenas coisas que não vão correspondendo literalmente a isso. E sendo um filme que está construído como se fosse um sonho, acho que é importante perceber quem está a sonhar o quê, quem está a fantasiar o quê. Será que é só uma pessoa que está a fantasiar? O que está efetivamente aqui a acontecer?

“Primeira Pessoa do Plural” é a terceira longa-metragem de Sandro Aguilar. Para se afastar do registo de “A Zona ” e de “Mariphasa”, durante o processo criativo contou com a colaboração de Cláudia Andrade e de Pedro Santo, um dos criadores de Bruno Aleixo:

Os meus interlocutores de escrita foram, numa primeira fase, a Cláudia Andrade, que é romancista e tem vários livros de contos editados e o Pedro Santo, um dos autores de Bruno Aleixo.

Quis encontrar pessoas que estivessem fora da minha esfera de conhecimento, que pudessem trazer diálogo comigo, para que eu fosse obrigado a sair da minha zona de conforto, do tipo de cinema que estava habituado a fazer. 

Quando saiu a minha segunda longa-metragem, senti que tinha chegado a um ponto limite num processo de trabalho e também numa linguagem, que precisava de abrir o leque de possibilidades para que o processo voltasse a ser interessante também para mim.

Então, os primeiros interlocutores foram interlocutores de escrita. A seguir, entrámos em residências artísticas com os atores, com o diretor de fotografia. Não foram coisas muito extensas no tempo, mas foram muito intensas da nossa relação com aquilo que íamos fazer.

Sandro Aguilar escreveu o argumento do filme “Primeira Pessoa do Plural” a pensar nos atores Isabel Abreu e Albano Jerónimo. A escolha do filho do realizador, Eduardo Aguilar, acabou por ser uma decisão que se impôs:

Foi escrito para eles, para o Albano, para a Isabel. No caso do Eduardo, não estava completamente definido que fosse ele, porque ele estava muito próximo de mim, porque eu não tinha a certeza, mas depois toda a gente à minha volta me sugeria que fosse o Eduardo.

Depois também percebi que resistia a uma coisa que era mais ou menos óbvia, porque o Eduardo tem trabalhado connosco. O Eduardo já foi filho da Isabel no “Mariphasa”, foi filho do Albano no “Mercúrio”, já fez de personagem do Albano na “Herdade”. Nós temos uma relação para lá dos filmes, que é uma relação muito boa, também temos uma relação pessoal.

Eu, a Isabel, o Albano, crescemos uns com os outros, e os nossos filhos cresceram também uns ao lado dos outros. Portanto, era lutar contra uma intimidade que já estava construída, e isso era bastante tolo, até porque eu incentivo bastante na construção das minhas equipas uma certa continuidade.

Quando nos entendemos e quando admiramos o trabalho uns dos outros – falo isto no caso do Albano, da Isabel, do Eduardo, da Cláudia, que também fez dois filmes connosco, o Cláudio entrou agora e foi uma excelente entrada, a Carla Maciel, os atores que entram, vão ter tendência a ficar no meu universo sempre que eu gosto de trabalhar com alguém. 

O filme “Primeira Pessoa do Plural” tem feito um percurso em festivais. O ator Albano Jerónimo e o diretor de fotografia Rui Xavier receberam um prémio na Mostra de Cinema de Valência, em Espanha. Agora, chegou a vez de estrear nas salas comerciais:

Estreámos em festivais, já ganhámos prémios. Nas vezes em que estive com ele em sala houve uma relação muito empática com o filme, de comoção, de relação emocional. Às vezes, o meu cinema pode ser uma experiência perturbadora. Desta vez, algumas pessoas ficam comovidas, algumas pessoas divertem-se imenso, portanto, depende do espectador que nós somos e o que nós trazemos para a sala, e o filme vai tendo ingredientes de inquietação, de humor, de melodrama, vai tendo uma série de dinâmicas que acabam por compensar vários tipos de espectador.

Por isso acho que este filme pode efetivamente ter uma carreira, até do ponto de vista comercial, diferente dos outros.

Para título do filme, Sandro Aguilar foi à procura de outra forma de dizer nós:

“Primeira Pessoa do Plural” é nós, mas é o primeiro estado a partir do qual um indivíduo se transforma em mais do que um. E eu acho que este aspecto tem mais a ver com o filme, porque ele não mostra só uma relação, a relação de um coletivo, ele mostra a relação de cada um daqueles personagens consigo, uma relação que é de sobrevivência. Por isso vemos vários momentos que são só deles e por isso eles separam-se muito cedo no filme para depois se encontrarem sobre outras formas e de outras variações, para tentarem depois retornar ao ponto onde estavam.

Portanto, o filme demora até ser um filme sobre a relação daquela família, vai decompondo essa relação em variações e em possibilidades, mas é muito também, em permanência, sobre o que é que cada um deles é antes de ser a relação com o outro. E por isso eu acho que esta expressão, parecendo complicada, traduz mais o que vemos no filme do que se eu lhe chamasse “Nós”.

“Primeira Pessoa do Plural” mergulha no universo das relações familiares, em situações de perda e dor, e nas tensões manifestadas no dia-a-dia.

  • Margarida Vaz
  • 20 Fev 2026 17:00

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