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26 Jan 2026

“Ângelo na Floresta Mágica” é a odisseia de um menino de 10 anos esquecido pelos pais numa estação de serviço e que sozinho atravessa a floresta para chegar à casa da avó. O filme de animação em 3D baseia-se no primeiro livro de banda desenhada dedicada ao público infantil de Winshluss, o nome artístico do realizador Vincent Paronnaud.

Em 2007, realizou “Persópolis” em conjunto com a ilustradora franco-iraniana Marjane Satrapi, um filme premiado no Festival de Cannes e nomeado para o Oscar de Melhor Animação. Com “Ângelo na Floresta Mágica”, o ilustrador francês aventura-se numa história para crianças, adaptada da sua obra:

Foi o meu primeiro livro para as crianças. Um acontecimento da minha carreira, já que trabalho principalmente para o público adulto, com temas mais políticos, ou sociais e até mais violentos. Esta foi a minha incursão no mundo da infância. Penso que é uma consequência do facto de ter tido filhos, quis fazer um livro que refletisse esse sentimento.

Na sua essência, é uma espécie de conto iniciático. Quando o terminei, disse a mim mesmo que tinha tudo o que era necessário para fazer um filme porque é uma narrativa muito aberta, sobre um menino que avança na floresta e na existência. É um conto iniciático.

Então, pensei que havia a possibilidade de fazer um filme, ou seja, manter o sabor, mudando um pouco a receita e os ingredientes. Nunca tinha feito desenhos animados para crianças na minha longa carreira e muito menos em 3D. Por isso pensei, vamos lá avançar.

Ter sido pai motivou Paronnaud, a desenhar para os mais novos. Além de se inspirar nos filhos, o ilustrador francês projeta a própria infância na história de “Ângelo na Floresta Mágica”:

Pensei nos meus filhos. Aliás, um deles chama-se Sid Angelo. É inspirado em todas as histórias que lhes contava quando eles eram pequenos. E coloca-se sempre algo de nós próprios nos personagens.

Neste menino estão todas as questões que na minha infância também me passaram pela cabeça. Sobre o mundo adulto, saber o que é a morte. E aqui falamos de ecologia, destruição, amor. Estes assuntos que nos perturbam quando somos crianças e quando chegamos à adolescência.

Projetei-me nas personagens que criei. Quando era pequeno a minha avó morreu e isso marcou-me muito. Na infância somos confrontados violentamente com a morte e com o luto e não estamos preparados. A história é também o meu sentimento relativamente à morte. A diferença é que no meu projeto, eu salvo a avó, ela não morre.

Penso que ter um pouco de esperança e utopia, para mim, é importante, porque vivemos num mundo bastante tóxico. Neste momento, a utopia foi banida, em benefício da raiva e do ódio. A utopia é, afinal, o que pode salvar a humanidade. Tenho essa impressão.

O ilustrador e realizador Vincent Paronneau traz o tema da tolerância para “Ângelo na Floresta Mágica”. Na travessia da floresta, o pequeno Angelo vai vencer medos, mostrar-se corajoso e determinado:

Quis que a personagem do Ângelo atravessasse a floresta, porque é lá que a mudança acontece, porque é um menino determinado, que não tem medo de nada, segue e tem um objetivo único, encontrar a avó. Como não tem mais referências, é aí que muda. A mudança surge quando não temos referências. E isso é maravilhoso.

Falo também de tolerância, porque o mundo é complicado e composto por muitas pessoas diferentes. Basta sair à rua para saber que todos são diferentes. Vivemos numa rigidez. É preciso ser a favor ou contra, sem tempo para se pensar em nada. Por isso, a minha ideia é um pouco utópica, um pouco hippie. Estou a tornar-me hippie por causa do mundo que está a ficar horrível. 

No filme, as plantas e os animais adotam características humanas. Vincent Poironneau, que partilha com Alexis Ducord a realização de “Ângelo na Floresta Mágica” quis abordar temas como a tolerância, ou as questões de género. A personagem do esquilo é um desses exemplos de tolerância:

É uma analogia, ou uma parábola. Este esquilo não quer apanhar bolotas. Só quer voar. Não quer ser um esquilo. Quer ser um pássaro. Não incomoda ninguém e é feliz assim. Podem fazer-se todas as conotações que se quiserem. Essa foi a minha intenção, dizer que as pessoas podem fazer o que quiserem se não incomodarem ninguém.

Vivemos num mundo que se abriu num momento, que já se está a fechar. Vemos e ouvimos discursos que, para mim, são perturbadores. Porque o ser humano tem o direito, se não incomodar ninguém, de fazer aquilo que quiser. É a liberdade de expressão, ou simplesmente a liberdade.

Além disso, este esquilo é engraçado. Voa mal, mas parece feliz. Alguém feliz nunca fará mal a ninguém. As pessoas infelizes é que estão cheias de ódio. E é por isso que temos de tornar as pessoas felizes.

Há uma grande diversidade de personagens em “Ângelo na Floresta Mágica”, mas Vincent Paronneau acrescentou ao filme uma personagem que não está no livro:

Há uma menina no filme que acrescentei e que não está no livro. As meninas podem identificar-se com esta personagem, a Zaza. Há personagens que encarnam valores. E esta menina é resistente, combativa, resiste. Mostra que é preciso que todos se unam. Não se consegue nada se não nos unirmos. Isso aí é claro.

Paronnaud reconhece que se inspira nos filmes que vê e nos livros que lê:

A inspiração é vasta, são todos os filmes que vi e todos os livros que li. É mais uma espécie de uma mistura de tudo. No “Ângelo”, por exemplo, dizem que o monstro na floresta se parece aos desenhos de Miyazaki.

Por isso, a inspiração está um pouco em toda a parte. E não necessariamente em coisas para crianças. Está nos filmes que vi. Gosto muito da “Noite do Caçador”, que é um filme de referência para mim.

No meu filme também pude colocar algumas coisas um pouco expressionistas. David Lynch. Fiquei traumatizado com “Veludo Azul”, quando vi o filme no cinema. Era uma criança nessa altura.

Isso também condicionou a minha visão do cinema. Percebi que as histórias podem ser contadas de formas diferentes.

Neste primeiro álbum infanto-juvenil, o autor pisca o olho a outros livros que desenhou:

Faço referências a outras coisas que fiz. É um privilégio da idade. Como trabalho há muitos anos, muitas vezes faço referências a outros trabalhos. Em “Ângelo” há aspetos que remetem para trabalhos que fiz, mas para adultos. Há pequenas referências.

Não é porque seja egocêntrico, mas acho divertido fazer referências a outras coisas que introduzi numa outra banda desenhada, num outro filme, numa outra música.

  • Margarida Vaz
  • 26 Jan 2026 16:39

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