Entre os dramas e os símbolos
A guerra da Bósnia regressa ao cinema através de uma produção de raiz espanhola: "Um Dia Perfeito", de Fernando León de Aranoa, evoca os trabalhos de um equipa de auxílio humanitário em finais de 1995, pouco depois da assinatura dos acordos de Dayton.

Não são muitos os filmes que têm arriscado lidar com os mais recentes conflitos nos Balcãs, em particular com a guerra da Bósnia (concluída em 1995, com os acordos de Dayton). Podemos recordar a evocação dramática e burlesca de "Terra de Ninguém" (2001), de Danis Tanovic, distinguido com o Oscar de melhor filme estrangeiro, e ainda o brilhante "Na Terra de Sangue e Mel" (2011), escrito e dirigido por Angelina Jolie.
"Um Dia Perfeito" constitui uma nova aposta de abordagem de tais contextos, mais concretamente o período final de 1995, quando a paz já foi oficialmente estabelecida, persistindo embora muitos focos de tensão. O filme centra-se, aliás, na acção de um grupo internacional de auxílio humanitário que, confrontado com uma tarefa muito específica — retirar um cadáver de um poço, de modo a restabelecer o abastecimento de água às populações locais —, depara com resistências inevitavelmente ligadas aos diferendos que desencadearam a guerra.
O filme aposta, assim, num registo em que a urgência das missões se confronta com problemas que estão muito para além das meras questões logísticas. Num registo que tenta combinar o realismo das situações com um distanciamento mais ou menos irónico, "Um Dia Perfeito" (a ironia começa, como é óbvio, no próprio título) possui as virtudes de uma crónica detalhada, dir-se-ia quase jornalística, e os muitos limites de uma narrativa que parece ter como objectivo principal um balanço "simbólico" algo simplista.
Trata-se, curiosamente, de uma produção de origem espanhola, dirigida por Fernando León de Aranoa, cineasta de quem o conhecíamos o bastante mais interessante "Às Segundas ao Sol" (2002). Visando um mercado internacional de língua inglesa, o filme recorre a um elenco, também ele internacional, que inclui, entre outros, Benicio Del Toro, Tim Robbins, Olga Kurylenko, Mélanie Thierry e Sergi López. Apesar dos talentos envolvidos, a simpatia dos resultados não esconde o seu convencionalismo dramático.