Entre o realismo e o “fait divers”
Cinema da Venezuela? É verdade: "À Distância" arrebatou o Leão de Ouro do Festival de Veneza (2015) e chega agora às salas portuguesas — para descobrirmos uma cinematografia e um pouco do seu país.

Eis um filme, no mínimo, difícil de classificar… Interessante, por isso mesmo. Afinal de contas, "À Distância" provém de uma cinematografia (e um país) que conhecemos mal. Ou ainda: como situar "À Distância" no contexto da produção da Venezuela (neste caso, em aliança com o México)? Lembremos apenas que o filme correspondeu a um momento de especial visibilidade das suas origens, já que arrebatou o Leão de Ouro em Veneza, no ano de 2015.
As dificuldades de classificação duplicam quando deparamos com o ponto de partida do argumento. Esta é, de facto, a história de Armando (Alfredo Castro), um homem obviamente sem problemas de dinheiro que atrai jovens pobres das ruas de Caracas a sua casa. O seu objectivo parece ser a satisfação de um "voyeurismo" que mantém essa distância a que o título se refere. Habitualmente, os jovens não resistem à "tarefa" para que são pagos — mas não acontece assim com Elder (Luis Silva), o que, paradoxalmente, poderá ser o início de uma relação.
O maior trunfo do filme estará nos seus actores. O chileno Alfredo Castro, nosso conhecido de vários filmes de Pablo Larraín (p. ex.: "Tony Manero", 2008), surge como um misto de transparência e mistério; por sua vez, Luis Silva é exemplar na composição de uma raiva profunda que nos remete sempre para a crueza de uma existência que o argumentista/realizador Lorenzo Vigas filma com metódico realismo cenográfico.
É pena que Vigas vá cedendo à facilidade de um maneirismo em que a complexidade psicológica das personagens dá lugar a uma lógica mais ou menos "policial". Sentimos, enfim, que as peripécias superficiais da história se substituem à densidade emocional com que o filme arranca (na sua brevidade, a cena final corre mesmo o risco de se esgotar no pitoresco do "fait divers"). Em resumo, uma oportunidade curiosa, longe de ser empolgante, para conhecermos um pouco mais da produção da América latina.