crítica
As muitas cores do preto e branco
Aos 72 anos de idade, o francês Philippe Garrel prossegue uma obra em que os enigmas dos seres humanos são vididos na dinâmica dos encontros e desencontros da grande cidade — "O Sal das Lágrimas" é mais um belo exemplo da sua coerência e consistência.

joao lopes
9 Out 2020 0:03
Quando, já há várias décadas, se começou a generalizar a televisão a cores, reforçou-se um tenaz preconceito contra os filmes a preto e branco: seriam incidentes dispensáveis e "descoloridos"… Para lá da ignorância que tal preconceito promove (uma boa metade da história do cinema faz-se a preto e branco), havia e há nele uma cegueira simbólica — como se o preto e branco não pudesse ser também uma paisagem de infinitas nuances.
Belo exemplo disso mesmo é a obra do francês Philippe Garrel. Com algumas poucas excepções, o essencial da sua magnífica filmografia faz-se a preto e branco, com resultados que configuram uma verdadeira arqueologia dos impulsos amorosos dos humanos.
Assim volta a acontecer em "O Sal das Lágrimas", fotografado pelo sempre notável Renato Berta, desenhando o labirinto de um homem (Logann Antuofermo, notável estreante) perdido nas suas relações com três mulheres.
Não se pode dizer que este seja exactamente um cinema "psicológico", mesmo se a mise en scène de Garrel se interessa por todas as nuances afectivas que aproximam e afastam as personagens. Acontece que nada disso contribui para qualquer visão determinista, expondo antes cada ser como um enigma que se adensa para os outros e, no limite, para si próprio.
Por isso mesmo, no mundo de Garrel os lugares em que vivem ou circulam as personagens estão longe de desempenhar qualquer função "decorativa" (nem pscologismo nem decorativismo). Tudo se conjuga de forma orgânica, gerando uma teia de peripécias vividas num microcosmo em permanente ebulição — na sua pequenez e fechamento, pressentimos as tensões globais da própria cidade.
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