“A Bola Negra”: propósito e empatia
Para os realizadores espanhóis Javier Calvo e Javier Ambrossi, a sua segunda longa-metragem, "A Bola Negra", foi uma viagem que lhes mudou a vida.
Desde a estreia no Festival de Cannes, em Maio, onde a dupla, conhecida como “Los Javis”, conquistou o prémio de melhor realização, têm crescido as expectativas em torno de uma possível nomeação para os Óscares de ” A Bola Negra”. O filme bateu recordes de bilheteira em Espanha e foi escolhido para representar o país na corrida aos Óscares de 2027.
Co-escrito por Calvo, Ambrossi e pelo dramaturgo espanhol Alberto Conejero, “A Bola Negra” inspira-se numa obra inacabada com o mesmo título de Federico García Lorca, uma das figuras mais influentes da literatura espanhola do século XX, assassinado por forças fascistas. O filme também tem como ponto de partida a peça de Conejero “La Piedra Oscura” e nasceu de uma viagem de avião para Ibiza, explicaram os realizadores durante a conferência de imprensa em Cannes:
“Íamos para Ibiza acabar de escrever os últimos capítulos de ‘A Messias’. Quis levar alguma coisa para ler rapidamente durante a viagem de avião. Na estante estava ‘La Piedra Oscura’, a peça de Alberto Conejero, que, de certa forma, está na génese deste filme e corresponde a uma das suas histórias, a de Sebastián e Rafael. Peguei nela e, assim que entrei no avião, antes de descolar, lembro-me de ter lido o prólogo, no qual se descreve o bombardeamento da aldeia, e de me ter posto a chorar de uma forma irracional, como se tivesse tocado numa tecla dentro de mim sem saber qual era nem o que estava a acontecer, como se o livro me estivesse a chamar, como se houvesse ali alguma coisa a vibrar.
O Javi viu-me a chorar e perguntou: ‘O que se passa? O que estás a ler?’ Respondi: ‘Olha, estou a ler “La Piedra Oscura”, que fomos ver em 2013. Ganhou o Prémio Max, um prestigiado prémio de teatro em Espanha. Estou a relê-la e acho que há aqui qualquer coisa, algo que temos de fazer.’ Acabei de a ler, ele leu-a também e disse-me: ‘Vamos começar, vamos começar a escrever.'”

Em “La Piedra Oscura” é mencionada “A Bola Negra”, a peça inacabada de Lorca. Os cineastas estudaram o texto e decidiram desenvolver as ideias criadas pelo escritor:
“Ele queria que fosse uma peça muito realista, que chegasse a toda a gente. No entanto, quando observávamos as personagens que tinha escrito, víamos que só havia quatro páginas: uma com o dramatis personae, outras duas com a lista de personagens e uma com texto. De repente, começava com personagens realistas e acabava com esquiadores, neve e figuras que pareciam muito poéticas, embora ele não quisesse fazer poesia. Achámos muito interessante o que ali estava e decidimos juntar as duas histórias e seguir esse fio. Mas percebemos que também precisávamos de algo contemporâneo, de algo que falasse de nós. Foi então que surgiu a história de Alberto.”
Umas das linhas primordiais do filme, segundo os realizadores é a ideia de “que a falta de comunicação conduz à violência.”
“Penso que o filme fala precisamente disso, da necessidade de encontrarmos pontos em comum que nos permitam dialogar. É o que acontece com as personagens de Alberto e da mãe, incapazes de chegar a acordo sobre os factos familiares mais radicais, centrais e fundamentais. Assim, não conseguem construir nada, porque tudo acaba em violência. Sempre que se encontram, a situação termina em violência, porque nem sequer conseguem concordar sobre quem teve a culpa, o que aconteceu ou quem fez o quê. Nem mesmo dentro das famílias.
O que queremos transmitir sobre a guerra é que, se não conseguirmos chegar a acordo, haverá sempre violência e que o diálogo é a única saída para tudo. Espero que o filme possa contribuir para isso, que seja uma janela para a empatia e para vermos o outro como um ser humano. Como quando Sebastián olha pela primeira vez para Rafael, na cama, depois de a enfermeira lhe dizer: ‘Tem medo de sangue, é simpático.’ E pensa: ‘Ah, o inimigo é simpático.’ Olha para ele e vê que tem pulso, que o sangue lhe corre nas veias, que respira. Gostava que as pessoas que vissem este filme também pudessem sentir que o outro existe.”

As três histórias entrelaçadas do filme percorrem um período que vai da Guerra Civil de Espanha, até à atualidade, abordando as dificuldades históricas de viver abertamente a homossexualidade e acompanham Sebastián, em 1937, Carlos, em 1932, e Alberto, em 2017. As personagens são interpretadas pelo músico Guitarricadelafuente e pelos atores Milo Quifes e Carlos González, respectivamente.
Aos 29 anos, Guitarricadelafuente estreia-se como ator no papel de Sebastián, um trompetista encarregado de vigiar Rafael Rodríguez Rapún, um soldado capturado e amante de Lorca.
O músico afirmou à Reuters que encontrar paralelismos com a própria vida o ajudou a controlar o nervosismo: “Na altura, estava a fazer um álbum sobre a descoberta de si próprio, sobre alguém que procura encontrar o seu lugar no mundo“, explicou o cantor e compositor, que também co-escreveu “La nieve”, um tema da banda sonora do filme. “Pus toda a minha alma no projeto e tentei representar a história da forma mais honesta possível.”
No elenco surgem ainda Penélope Cruz, no papel de uma artista que actua durante a guerra, e Glenn Close, que interpreta uma especialista na obra de Lorca.
“La Bola Negra” estreia nos cinemas portugueses a 5 de Novembro.