“Batalha Atrás de Batalha” vence o Óscar de melhor filme
Triunfou em seis categorias, incluindo ainda as de Melhor Realização e Melhor Argumento Original para Paul Thomas Anderson. Michael B. Jordan e Jessie Buckley ganharam os principais Óscares de representação.
Algures entre o thriller político e a comédia negra, “Batalha Atrás de Batalha” venceu o prémio de melhor filme nos Óscares e conquistou seis estatuetas numa noite em que Hollywood distinguiu histórias pouco convencionais.
A narrativa excêntrica sobre resistência política alternou vitórias com “Pecadores”, uma celebração da cultura afro-americana com um toque sobrenatural, e disputou o protagonismo até ao fim no Dolby Theatre.
“Vamos beber um martini! Isto é absolutamente incrível”, disse o realizador Paul Thomas Anderson no palco, depois de “Batalha Atrás de Batalha” ser anunciado como vencedor do maior prémio da noite. A produção da Warner Bros. conta com Leonardo DiCaprio no papel de um antigo revolucionário, pai solteiro e fumador de erva.
Antes deste ano, Anderson contava 11 nomeações e nenhuma vitória. Além de melhor filme, recebeu também os prémios de melhor realização e melhor argumento adaptado.
“Escrevi este filme para os meus filhos, como um pedido de desculpa pela confusão que deixámos neste mundo”, afirmou Anderson ao aceitar o Oscar de melhor argumento. “Mas também com a esperança de que serão a geração que trará algum bom senso e decência.”
Sean Penn, que interpretou um oficial militar obcecado em “Batalha Atrás de Batalha”, venceu o Óscar de melhor ator secundário – o terceiro da sua carreira. Conhecido por evitar cerimónias, Penn não compareceu ao teatro. “Sean Penn não pôde, ou não quis vir. Por isso, aceitarei o prémio em seu nome”, brincou o apresentador Kieran Culkin, vencedor da mesma categoria no ano anterior.

“Pecadores” entrou na cerimónia com 16 nomeações, mais do que qualquer outro filme na história quase centenária dos Óscares. Acabou por arrecadar quatro prémios, incluindo melhor ator para Michael B. Jordan, que interpreta os gémeos Smoke e Stack. Passado no sul dos Estados Unidos durante a segregação racial, o filme celebra o blues e a cultura afro‑americana com um toque sobrenatural.
“Estou aqui graças às pessoas que vieram antes de mim”, disse Jordan, ao recordar vencedores negros anteriores como Sidney Poitier, Denzel Washington e Halle Berry. “Vou continuar a lutar e a ser a melhor versão de mim próprio.”
Autumn Durald Arkapaw fez história ao tornar‑se a primeira mulher e a primeira pessoa negra a vencer o Óscar de melhor direção de fotografia com “Pecadores”.
A irlandesa Jessie Buckley recebeu o prémio de melhor atriz pela interpretação de Agnes Hathaway, mulher de William Shakespeare, em “Hamnet”. O filme explora a forma como o casal enfrentou a morte do filho de 11 anos. “Dedico este prémio ao belo caos do coração de uma mãe”, declarou Buckley.
Amy Madigan, de 75 anos, venceu o Óscar de melhor atriz secundária pelo papel da excêntrica tia Gladys no filme de terror “Hora do Desaparecimento”, conquistando a sua primeira estatueta 40 anos após a primeira nomeação.
“K‑Pop Demon Hunters”, a produção da Netflix que se transformou num fenómeno global, recebeu o prémio de melhor filme de animação. O tema principal, “Golden”, foi distinguido como melhor canção original.

“Valor Sentimental”, de Joachim Trier, venceu o prémio de melhor filme internacional, tornando‑se o primeiro filme norueguês a obter essa distinção após seis nomeações anteriores.
O apresentador Conan O’Brien abriu a gala em tom humorístico e afirmou sentir‑se honrado por ser “o último apresentador humano” dos Óscares, numa altura em que Hollywood manifesta preocupação com a substituição por inteligência artificial.
Os Óscares foram entregues enquanto os Estados Unidos travam uma guerra com o Irão, o que levou a reforçadas medidas de segurança após um alerta federal sobre uma possível ameaça iraniana na Califórnia.
Apesar das celebrações, a indústria cinematográfica mantém-se inquieta com os estúdios a procura incentivos fiscais e custos mais baixos fora de Hollywood. A Warner Bros., vencedora da noite com 11 Óscares, está em processo de venda à Paramount Skydance, num negócio que reduzirá o número de grandes distribuidores. O grupo de pressão Free Press exibiu um painel móvel em Hollywood durante o fim de semana para manifestar a oposição à fusão.
Os vencedores das estatuetas douradas são escolhidos pelos cerca de 10 mil membros da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, entre atores, produtores, realizadores e outros profissionais do cinema.
Críticas, gestos contra a guerra e a primeira vez de Ted Sarandos

Conan O’Brien não costuma envolver‑se tanto em política como outros apresentadores. Contudo, no monólogo de abertura deste ano, avisou que seria diferente. Aos menos apreciadores desta mudança, sugeriu um espetáculo alternativo apresentado por Kid Rock, o cantor norte‑americano que, durante o Super Bowl de fevereiro, organizou um concerto de intervalo rival ao de Bad Bunny.
“O presidente‑executivo da Netflix, Ted Sarandos, está aqui, e isto é entusiasmante: é a sua primeira vez num cinema. ‘É disto que falam? Porque estão juntos a divertir‑se? Deviam estar sozinhos em casa!’”, brincou O’Brien sobre a plataforma de streaming durante o monólogo de abertura.
O apresentador de televisão Jimmy Kimmel, que já conduziu outras edições dos Óscares, elogiou a coragem dos realizadores de documentários, salientando que, em alguns países, a liberdade de expressão não é respeitada. Acrescentou, em tom de humor, que não podia dizer quais, antes de concluir: “Fiquemos por Coreia do Norte e CBS.” Kimmel ironizou depois sobre o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump: “Vai ficar furioso porque a mulher não foi nomeada.”
“Marty Supreme” não recebeu qualquer prémio e Timothée Chalamet perdeu o Óscar de melhor ator para Michael B. Jordan. A sua derrota surgiu após críticas negativas que o ator dirigiu ao bailado e à ópera, levando O’Brien a gracejar: “A segurança está extremamente apertada esta noite. Disseram‑me que há receios de ataques vindos das comunidades da ópera e do bailado.”
“Mr. Nobody Contra Putin”, sobre um jovem professor russo que resiste em silêncio à guerra da Rússia contra a Ucrânia, recebeu o Óscar de melhor documentário. O realizador David Borenstein afirmou, no discurso de aceitação, que o filme mostra como se pode perder um país através de pequenos atos de cumplicidade. “Tornamo‑nos cúmplices quando um governo assassina pessoas nas ruas das nossas cidades e ficamos calados, quando os oligarcas tomam conta dos meios de comunicação e controlam a forma como produzimos informação”, disse o realizador. As palavras surgiram após a morte de dois norte‑americanos em Minneapolis, abatidos por agentes de imigração.
Vários convidados usaram pins com mensagens políticas, incluindo “ICE OUT”, em protesto contra o serviço de imigração dos Estados Unidos, e outros que pediam o fim das guerras no Irão e em Gaza. O ator espanhol Javier Bardem trazia dois: um com os dizeres “NO A LA GUERRA” (“Não à guerra”) e outro com “Free Palestine” (“Libertem a Palestina”). Ao apresentar o prémio de melhor filme internacional, declarou: “Não à guerra e libertem a Palestina”, recebendo aplausos da plateia.
A morte de tantas figuras importantes de Hollywood este ano levou a um dos segmentos mais longos da cerimónia. O realizador Rob Reiner foi homenageado pelo ator Billy Crystal, após Reiner e a mulher, Michele, terem sido encontrados mortos em casa, no bairro luxuoso de Brentwood, em Los Angeles, a 14 de dezembro de 2025. O filho mais novo do casal, Nick Reiner, foi acusado dos homicídios e declarou‑se inocente.
Barbra Streisand, que contracenou com Robert Redford em “Tal como Éramos”, descreveu‑o como “um ator brilhante e subtil” e “um cowboy intelectual”. Terminou as suas palavras cantando alguns versos da canção‑tema do filme.
Uma nova categoria, um empate e a afirmação da pop sul-coreana

O prémio para mérito em direção de casting é a primeira nova categoria criada desde o Óscar de melhor filme de animação, instituído em 2001. A distinção reconhece formalmente o papel que os diretores de casting desempenham na visão e no sucesso de um filme. Cassandra Kulukundis foi a vencedora pelo seu trabalho em “Batalha Atrás de Batalha”.
Autumn Durald Arkapaw tornou‑se a primeira mulher e a primeira pessoa negra a vencer o Óscar de melhor fotografia; “Golden” deu ao género K‑Pop a sua primeira vitória na categoria de melhor canção original; e “Valor Sentimental” tornou‑se o primeiro filme norueguês a conquistar o troféu de melhor filme internacional.
“The Singers” e “Two People Exchanging Saliva” partilharam o prémio de melhor curta‑metragem de imagem real. Na história dos Óscares registaram‑se apenas seis empates, o último dos quais em 2013, na categoria de melhor som.

Lista de vencedores da 98.ª edição dos Óscares
Melhor Filme: “Batalha Atrás de Batalha”
Melhor Realização: Paul Thomas Anderson, “Batalha Atrás de Batalha”
Melhor Actor: Michael B. Jordan, “Pecadores”
Melhor Actriz: Jessie Buckley, “Hamnet”
Melhor Actor Secundário: Sean Penn, “Batalha Atrás de Batalha”
Melhor Actriz Secundária: Amy Madigan, “Hora do Desaparecimento”
Melhor Argumento Original: Ryan Coogler, “Pecadores”
Melhor Argumento Adaptado: Paul Thomas Anderson, “Batalha Atrás de Batalha”
Melhor Filme de Animação: “K‑Pop Demon Hunters”
Melhor Curta‑Metragem de Animação: “The Girl Who Cried Pearls”
Melhor Direcção de Casting: Cassandra Kulukundis, “Batalha Atrás de Batalha”
Melhor Filme Internacional: “Valor Sentimental” (Noruega)
Melhor Documentário: “Mr. Nobody Contra Putin”
Melhor Curta‑Metragem Documental: “All the Empty Rooms”, de Joshua Seftel e Conall Jones
Melhor Banda Sonora Original: Ludwig Göransson, “Pecadores”
Melhor Canção Original: “Golden”, do filme “K‑Pop Demon Hunters”
Melhor Som: “F1”
Melhor Direcção Artística: Tamara Deverell e Shane Vieau, “Frankenstein”
Melhor Curta‑Metragem de Ficção: ex aequo “The Singers” e “Two People Exchanging Saliva”
Melhor Fotografia: Autumn Durald Arkapaw, “Pecadores”
Melhor Maquilhagem e Penteado: “Frankenstein”
Melhor Guarda‑Roupa: “Frankenstein”
Melhores Efeitos Visuais: “Avatar: Fogo e Cinzas”
Melhor Montagem: Andy Jurgensen, “Batalha Atrás de Batalha”
Filmes mais premiados:
“Batalha Atrás de Batalha” – 6 Óscares
“Pecadores” – 4 Óscares
“Frankenstein” – 3 Óscares