Dominik Moll sobre o CASO 137: “É um erro não admitir que a violência policial existe”
Após "A Noite do Dia 12", o realizador regressa ao universo policial com um filme que disseca as tensões entre as forças de segurança e o Estado de Direito. Baseado numa minuciosa investigação junto da Inspeção Geral da Polícia Nacional francesa, o filme acompanha uma inspetora — interpretada por Léa Drucker — que procura apurar a verdade sobre a repressão de uma manifestação.
“Caso 137” é um filme que acompanha a investigação do uso de violência por parte da polícia. Vai à procura da verdade do que aconteceu durante uma manifestação quando uma bala de borracha fere com gravidade um jovem.
Não deixar cair no esquecimento o movimento dos coletes amarelos que surgiu em 2018 e falar da violência exercida pela polícia levou o realizador Dominik Moll a avançar com “Caso 137”:
O que me motivou inicialmente foi o meu interesse pela polícia dos polícias. Trata-se de um órgão de controlo democrático que se encontra numa posição pouco confortável uma vez que são mal vistos pelo resto da polícia e criticados por certa comunicação social que os acusam de tomar partido.
Tinha vontade de falar sobre a relação entre a polícia e a população e qual deve ser o papel da polícia numa democracia. Também queria revisitar o período dos coletes amarelos porque foi um momento muito forte e muito importante na história francesa.
Após ter escrito e realizado “A Noite do Dia 12”, outro policial, Dominik Moll partilhou o argumento de “Caso 137” com Gilles Marchand. A estrutura francesa que controla a atividade policial, a Inspeção Geral da Polícia Nacional (IGPN) abriu-lhes as portas e conferiu-lhes acesso a vários processos de polícias acusados de abuso de violência:
O caso, tal como é apresentado no filme não existe, mas foi reconstruído a partir de vários casos que têm origem na realidade. É uma ficção, mas muito bem documentada.
Baseei-me nesse trabalho de pesquisa e documentação para construir este guião com Gilles Marchand e para compreender o funcionamento da IGPN como são conduzidas estas investigações.
Fiz um longo trabalho de pesquisa e pude observar os investigadores, assistir a audições, etc. Cheguei mesmo a participar numa manifestação ao lado dos polícias, onde eu próprio estava disfarçado de polícia.
Dominik Moll escolheu uma mulher para a personagem de inspetora, não só porque era melhor para a dramaturgia, mas também porque é um departamento da polícia onde há praticamente igual número de homens e de mulheres:
Por um lado, isso corresponde à realidade, ou seja, enquanto noutros serviços policiais há sempre uma maioria de homens, na IGPN a proporção é cerca de 50-50 o que significa que há, afinal, muitas mulheres. Quando fiz o trabalho de pesquisa, interagi principalmente com investigadoras por isso pareceu-me que a protagonista ser uma mulher correspondia à realidade.
Do ponto de vista dramático, achei mais interessante ter uma mulher a enfrentar estes homens polícias bastante imponentes fisicamente. Imaginar uma mulher diante desses indivíduos muito fortes que não gostam de ser questionados e ainda menos de serem interrogados por mulheres.
A partir de “Caso 137”, Dominik Moll quer refletir sobre a violência policial que muitas vezes é desvalorizada, ou mesmo ignorada:
O que me interessa é questionar como se chega à violência policial. Não penso que o filme seja imparcial porque afirma que a violência policial existe. É um problema que temos, pelo menos em França, onde o poder político é incapaz de admitir que esse problema existe.
Há a impressão de que se o fizer estará a condenar toda a polícia quando não é isso. Não é por se dizer que alguns polícias que se comportam mal que todos se comportam mal, mas há uma grande dificuldade em admitir isso que provém, também, da pressão dos sindicatos, sobretudo o sindicato policial maioritário o Alliance, um sindicato de extrema-direita que exerce muita pressão sobre os políticos. Assim que há a mínima crítica, dizem logo que se quer abolir a polícia, etc.
Em”Caso 137″, um jovem foi alvejado pela polícia e a família apresentou queixa. A inspetora Stéphanie vai investigar a ação da brigada policial durante a manifestação para apurar o que aconteceu. O papel é desempenhado pela atriz francesa Léa Drucker:
A Stéphanie é investigadora na polícia dos polícias. É uma mulher muito íntegra e séria no que faz e exerce uma tarefa pouco confortável, uma função que não é muito apreciada, nem pelos colegas polícias, nem pelos cidadãos. Por isso é desconfortável, mas, ao mesmo tempo, é um caminho para a justiça.
A partir daí ela conduz esta investigação e depara-se com conflitos internos que a vão abalar e criar uma sensibilidade, ou algo que foge um pouco àquilo que é profissional e que a levará a questionar-se sobre os limites do sistema em que trabalha.
Com a interpretação em “Caso 137” Léa Drucker conquistou o César de Melhor Atriz nos principais prémios do cinema francês e ganhou também o prémio Lumière, entregue pela imprensa estrangeira.
Para se preparar para a personagem, falou com várias mulheres polícia:
Conversei com várias investigadoras, fiz-lhes perguntas, tentei descobrir como poderia começar a identificar-me com elas. Disse-lhes que queria ser credível e houve muitas coisas que consegui compreender perfeitamente e que me permitiram entrar na personagem.
Quando vestia a farda e começávamos a filmar, sentia que era polícia. A investigação poderia ter sido conduzida por um homem, porque também há homens no IGPN, porém, neste caso, era bom ser uma personagem feminina. De repente, vê-mo-la frente a frente com homens que são polícias e que realizam ações muito perigosas. Ela tem de interrogá-los e eles desprezam-na, dizem ‘quem é ela para nos questionar e nos fazer perder o nosso tempo’, são situações muito difíceis de tratar, mas ela prossegue, mesmo assim.
Para a atriz, a personagem Stéphanie, tem uma faceta profissional e outra pessoal:
Ela é mãe de um menino e isso é interessante porque existe esse aspeto conflituoso entre a polícia e os cidadãos que, por vezes, não gostam da polícia. Esse facto é contado do ponto de vista da criança, do filho que lhe pergunta mãe, por que é que ninguém gosta da polícia? Então, ela explica ao filho que não é verdade, há também o gatinho que ela encontra e acolhe. O gato é importante porque traz um pouco de ternura a um universo muito duro onde há pouca emoção.
“Caso 137”, drama que lançou um debate sobre a violência policial em França estreou esta semana nas salas de cinema portuguesas.