Entrevista a Simão Cayatte: O BARQUEIRO e as sombras invisíveis do Tejo
A segunda longa-metragem de Simão Cayatte tem como pano de fundo a exploração ilegal de amêijoa no Mar da Palha e acompanha um homem que procura redimir-se.
“O Barqueiro” é a segunda longa-metragem de Simão Cayatte, realizada depois de uma estreia com “Vadio”. Os ponto de contacto entre um e o outro filme são óbvios.
Neste reencontro com o cineasta, a propósito da estreia nos cinemas de “O Barqueiro”, começamos precisamente por essa ligação com “Vadio”. A margem sul e as narrativas de fragilidade neste território são paisagens que te interessam?
Sim. “O Barqueiro” passa-se sobretudo nas margens do rio Tejo, cenário para onde o personagem do Joaquim, interpretado pelo Romeu Runa, vai trabalhar como barqueiro, como indica o título, uma profissão bastante perigosa, atual, contemporânea. Para quem não sabe, cumpre a função de levar e ir buscar os apanhadores da amêijoa que trabalham sob condições perigosas e ilegais nas margens do rio e esperam por estes barqueiros nos bancos de areia. Se os barqueiros não os vierem buscar, arriscam morrer afogados.
No filme, esta personagem, o Joaquim, sai da prisão passados 16 anos e não conta à família que saiu porque tem uma promessa por cumprir, oferecer um piano à filha adolescente que é pianista. A forma de o fazer é arranjar dinheiro rápido. E este é o trabalho que ele vai fazer.
Para responder à tua pergunta, o cenário acaba por ser o rio Tejo, sobretudo, a zona de Setúbal, onde a personagem mora, onde o filme começa e, depois, nas margens do rio Tejo, Montijo, Samouco, onde o resto do filme se desenrola.

O cinema também é uma oportunidade para investigares algo que te inquieta.
A narrativa de “O Barqueiro” encontra um espaço geográfico que é o além-Tejo, claramente. Isso também existia em “Vadio”. O que é sedutor nestes territórios? Enfim, sedutor para estas personagens que acabam por ter circunstâncias emocionais em comum.
No caso do “Vadio” é um filme que se passa no Alentejo profundo, numa zona muito seca, simbolicamente. Apesar de ambos se passarem para lá das fronteiras do Tejo, são filmes, para mim, profundamente diferentes a nível geográfico. Um é água e o outro é fogo, campo, secura. Portanto, as zonas em si são situações diferentes.
Há uma ligação mais umbilical no “Vadio” com aquele Alentejo onde passei algum tempo durante a minha infância. Sempre me interessou a ideia simbólica e muito real da figura de quem tem de perfurar a terra para ir buscar água, a profissão do pai do rapaz no “Vadio”.
Aqui em “O Barqueiro”, a história passava-se na zona de Setúbal e acontece esta coincidência de, numa primeira versão do guião escrito pela Filipa Martins e pelo Vasco Gato, a personagem do Joaquim ir ao encontro da comunidade tailandesa. E eu fiz-lhes a proposta de essa comunidade tailandesa serem, precisamente, os apanhadores da amêijoa, porque, desde há oito, dez anos, tenho investigado e explorado esta questão da escravidão moderna, tanto na apanha da fruta, no Alentejo, como na apanha da amêijoa. Por isso, foi inevitável acabarmos por filmar aí.
Depois surge a ideia do barqueiro, esta figura mitológica de alguém que está entre duas margens, porque já saiu da prisão, mas ainda não voltou a casa, portanto existe nesta espécie de limbo. Esta imagem quase mitológica do Caronte que leva as almas mortas de uma margem à outra a troco de moedas foi crescendo e este rio, que é mais um mar, o Mar da Palha, violentíssimo, tornou-se uma figura central da história.

Como referiste é uma realidade de trabalho clandestino, esta que filmas. O enquadramento para a personagem do barqueiro, o contexto em que ele se move, está documentada, do ponto de vista noticioso, nem tanto no cinema. Falavas de um longo processo de investigação. Como aprofundaste o conhecimento sobre a apanha ilegal do marisco que mobiliza muita mão de obra estrangeira e clandestina e que acontece nas margens do Tejo?
Porque eu fui imigrante e por tudo aquilo que se tem passado no que diz respeito ao que é ser português, quem é português, o que entendemos como a figura de alguém local. Depois, relativamente à questão do Alentejo e da apanha da fruta tenho visto, ao longo dos anos, um Alentejo a mudar completamente.
Por exemplo, na vila de São Teotónio, tens uma população que já é mais de 50% estrangeira, tens uma escola inacreditável com 40 nacionalidades e um trabalho incrível que está a ser feito. O panorama e a paisagem mudaram completamente. Porém, há muita mão de obra ilegal e há muitos fantasmas. Pessoas que não estão documentadas e pessoas que são aproveitadas. Esta imagem sempre me afligiu muito, esta coisa de armazéns com pessoas a viverem ao molho em condições sub-humanas.
Foi uma pesquisa que fui fazendo, ao longo dos últimos dez anos, sem nunca saber se iria, ou não, acabar num filme. Uma coisa é certa, sabia que não queria contar a história. Não faço documentário e não queria entrar nem do ponto de vista da vítima, nem do opressor.
Portanto, era uma pesquisa com muito material acumulado e depois da proposta do Paulo Branco para ler o guião, quando aparece esta personagem do Joaquim, percebo… Esta comunidade tailandesa fez sentido. Achei que era a oportunidade certa para ir ao encontro desta realidade e ficar a conhecê-la melhor. Às vezes o cinema também tem disso, é uma oportunidade para ires mais fundo, para investigares algo que te inquieta e contá-la através da perspetiva de alguém que está entre as duas margens. Algo que não envolve um julgamento direto.
O Joaquim foi ele próprio prisioneiro. Agora é-lhe pedido que seja guarda-prisional, no fundo, perante outro tipo de prisioneiros. E foi por aí que a pesquisa que tinha feito afunilou neste sentido.
Esta ideia de que a cidade está toda à vista, não é real…
Há também referências cinematográficas, gostava de ouvir-te sobre isso. A questão dos mariscadores foi ficcionada numa curta-metragem de Nuno Baltazar, “Califórnia”, o imenso Mar da Palha é o cenário de “Tarde Demais”, um filme fundamental de José Nascimento.
Gostava de perceber se há no imaginário do cinema português algo que te atraia na aproximação que propões.
As minhas referências para este filme foram mais distantes, se calhar até fora do cinema. Independentemente do rio e da violência dessa paisagem, das referências de que falas, o “Tarde Demais”, que é fantástico, e esse universo ligado ao rio, interessava-me mais explorar o mundo interior do Joaquim.
As conversas que tive com o Paulo Branco no início do processo foram muito honestas, no sentido de que não adianta achar que sabemos o que é a vida de alguém que está preso durante 16 anos.
Até seria um bocadinho ingénuo fazer um filme sobre isso. Disse logo desde o início que a prisão era outra, era uma prisão interior, familiar, de culpa. Há alguém que cometeu um crime e que tem a hipótese de espiar esse crime, mas que, pelo meio, percebe que consegue viver como uma espécie de turista entre duas realidades.
Se calhar, as referências vieram mais de outros lugares, de outros cinemas e um pouco da literatura e ligados um a esta questão mais existencial.

E a escolha de Romeu Runa para o papel do Joaquim, como aconteceu?
O Romeu é fantástico, conheço-o há mais de 10 anos, do teatro e da dança, já tinha contacto com o trabalho do Romeu e acho que estes últimos trabalhos que ele fez em cinema, permitiu-me ter acesso a outro lado do Romeu. Portanto, era sem dúvida alguém que eu queria muito ver no casting e acho que foi imediato.
Vi alguém que podia perfeitamente ser o Joaquim, na sua fisicalidade, na forma como a sua energia também fazia transparecer o texto e acho que ele se identificou muito também com o texto.
Não sei se ele se importaria de eu contar esta história, mas o Romeu escreveu-me no dia do casting, dizia que o papel era feito para ele. Eu senti uma coisa muito parecida, foi um encontro muito feliz e não é fácil, nesta mentira do cinema.
Alguém que está preso durante 16 anos e sai carrega um peso grande e acho que ele consegue, com muito poucas falas, é um filme com diálogo esparso, acho que ele consegue carregar muita intenção e muita emoção.
Deixa-me voltar à atualidade, porque há um contraste entre a zona envolvente, seja Setúbal, Montijo, ou Lisboa, e a população que está a viver em condições clandestinas. É algo subtil no contexto desta história familiar, mas é também esse país marginal que pretendes filmar em “O Barqueiro”?
Sim, sem dúvida. Tens uma legião de imigrantes ilegais que trabalham na apanha, fazem duas marés em condições muito complicadas. Vemos nas notícias, por vezes aparece um corpo a boiar e percebemos que, no meio, convém dizer que não é na totalidade, mas lá pelo meio daquele ofício, daquela apanha, há uma máfia e um aproveitamento do ser humano como força de trabalho, há uma escravidão.
E nem sempre nas notícias se falava sobre quem estava no topo da pirâmide, sobre como estas coisas funcionavam.
A mim, choca-me, inquieta-me que à distância de poucos metros possa haver um bairro de unicórnios e startups tecnológicas por onde flui muito dinheiro e muitas criptomoedas, muito sonho em relação a um certo futuro capitalista, e a poucos metros dali tenhas a escravidão como ela existia há 200 anos.
E isso com uma ponte pelo meio, por onde passam carros a caminho das férias, sem saber que por debaixo às vezes tens cerca de 500 a 600 pessoas com água pelos joelhos a apanhar ameijoa, muita dela tóxica e ilegal, que depois é embalada e segue para a Espanha é vendida e muita volta para cá. Portanto, esta ideia de que a cidade está toda à vista, não é real. Existem estas camadas e estas sombras e isso interessa-me.