Festival de Cannes: Frémaux antecipa seleção marcada pela “fragilidade” do cinema
O Delegado-Geral do Festival de Cannes, Thierry Frémaux, prepara o anúncio da seleção oficial para 9 de abril, num ano em que Hollywood reduz a presença e abre espaço para o cinema de autor europeu e asiático.
Thierry Frémaux completa 25 anos ao leme do Festival de Cannes num cenário de transformação para a cinema. Numa entrevista ao jornal norte-americano Variety, em vésperas de revelar as escolhas para a edição de 2026, o Delegado-Geral assume que o setor atravessa um período de fragilidade.
A crise na exibição em sala e a mudança de hábitos das novas gerações, aliados a cenários de fusão entre grandes estúdios norte-americanos e à moda da inteligência artificial que Frémaux classifica como “uma nova forma de pirataria” surgem como desafios imediatos. Apesar das incertezas, o responsável mantém o otimismo e sublinha a capacidade de renovação criativa do meio, reiterando que o festival não abdica de “elevados padrões artísticos” para definir a identidade do cinema contemporâneo.
Parece certo que Hollywood terá uma presença mais contida na Croisette. Frémaux nota que os estúdios produzem menos blockbusters e menos filmes de autor.
Garantidamente de fora estão Alejandro González Iñárritu, com “Digger”, e Christopher Nolan, com “A Odisseia”, obras não finalizadas. Também Ruben Östlund e Lukas Dhont, com “Coward”, falham o certame por questões de calendário. Já o regresso de Steven Spielberg com “Disclosure Day” permanece incerto, dependente de decisões estratégicas de última hora.
Com menos títulos norte-americanos, as atenções viram-se para o cinema europeu e asiático. A França poderá ter uma forte representação com “L’Inconnu”, de Arthur Harari, “La Vénus électrique”, de Pierre Salvadori, e “Histoires parallèles”, o segundo projeto em língua francesa do iraniano Asghar Farhadi, que reúne um elenco com Isabelle Huppert e Vincent Cassel. De Espanha, a expectativa recai sobre a tragicomédia sobre o luto e a criação artística “Amarga Navidad” de Pedro Almodóvar, “El Ser Querido” de Rodrigo Sorogoyen, protagonizado por Javier Bardem, e “Out of This World”, de Albert Serra.
O novo trabalho de Nanni Moretti, “Succederà questa notte”, é um provável representante do cinema italiano enquanto a Alemanha aguarda a confirmação de “Geister”, de Fatih Akin, e “Bucking Fastards”, de Werner Herzog.
O contingente de realizadores russos no exílio começa a ganhar peso e poderá contar com a estreia em língua inglesa de Kantemir Balagov, “Butterfly Jam”, rodado nos Estados Unidos, ao lado de Kirill Serebrennikov, que tem “Après” em fase de pós-produção e de “Minotaur”, de Andrey Zvyagintsev.
Com tradição em Cannes, o cinema romeno poderá contar com a estreia mundial de “Fjord”, estreia em inglês de Cristian Mungiu, e “The Costume”, de Corneliu Porumboiu.
Desde a Ásia, um dos esperados na Croisette é “The First Taste of Loneliness”, de Gu Xiaodong, enquanto o japonês Ryûsuke Hamaguchi deverá apresentar “Tout à Coup”, filmado em francês, e o vencedor da Palma de Ouro, Hirokazu Kore-eda, tem preparado “Sheep in the Box”.
A lista final será conhecida na conferência de imprensa marcada para Paris, a 9 de abril.