François Ozon filma o vazio moral em “O Estrangeiro”
Nesta adaptação da obra de Albert Camus, o cineasta e o elenco encabeçado por Benjamin Voisin e Rebecca Marder discutem a desumanização do "outro" e a inquietante atualidade no pensamento do escritor francês.
A obra-prima da literatura “O Estrangeiro”, do escritor Albert Camus, reinventa-se no cinema. Meursault, cidadão francês, que matou um árabe e não chorou a morte da mãe, torna-se personagem principal no ecrã. Depois de Visconti e da versão do realizador turco Zeki Demirkubuz, François Ozon adapta para o cinema a obra do prémio Nobel da literatura.
A vontade de fazer um filme sobre um homem contemporâneo deu força ao cineasta francês:
Se me tivesse perguntado há três anos se um dia adaptaria “O Estrangeiro”, teria respondido ‘nunca na vida’. É uma obra-prima da literatura francesa. É um dos três livros franceses mais lidos e traduzidos no mundo e é considerado um livro impossível de adaptar porque é filosófico.
Li-o quando era estudante do secundário e, na época, gostei muito. A ideia de adaptá-lo surgiu a partir de um outro projeto que não concretizei. Era o retrato de um jovem de hoje confrontado com o absurdo do mundo.
Voltei a ler “O Estrangeiro” e percebi que o livro continuava tão poderoso, forte e misterioso como antes. Fiquei até surpreendido. Pensei com era estranho darem-nos a ler este livro verdadeiramente filosófico durante a adolescência porque, mesmo que a história seja fácil de acompanhar, levanta muitas questões e não é muito clara.
Foi um verdadeiro desafio confrontar-me com este livro, com o seu pensamento e tentar recriar esta história no cinema e ver se os espectadores de hoje se interessariam pela personagem de Meursault, se ainda teria relevância no mundo de hoje.

A história centra-se na figura de Meursault, um francês que vive em Argel e mata um homem árabe. Sem se distanciar do lado existencialista e filosófico da obra, François Ozon faz algumas alterações. O livro foi publicado em 1942, quando Argel era uma colónia francesa. O cineasta quis dar esse contexto e começa o filme com imagens de arquivo:
Tive a ideia de começar o filme com imagens de arquivo, da época em que se ouve a voz do colonizador francês a dizer que é maravilhoso, que está tudo muito bem e isso permite que os espectadores possam compreender o contexto e porquê é que esta história acontece.
Não é por acaso que Meursault mata um árabe. Poderia ter matado um espanhol, porque havia muitos espanhóis em Argel naquela época. Poderia, por exemplo, ter matado outro francês.
Não, ele mata um árabe. Isso, necessariamente, tem um significado. Era preciso trazer essa dimensão política que não é evidente quando se lê o livro.
Outra grande mudança que introduzi no filme foi nas personagens femininas, pouco desenvolvidas no livro. Nomeadamente, a irmã do árabe assassinado. Pareceu-me necessário ouvir a voz dos árabes, porque quando lemos o livro hoje, o que nos choca é a invisibilidade dos árabes. Essa era a realidade, porque as comunidades viviam lado a lado, mas em mundos distintos. Tudo isto precisava de ser mostrado.
Na história, todos os homens são muito negativos e tóxicos. Há um que bate na mulher, outro que bate no cão e outro que mata um árabe por causa do sol. É difícil imaginar homens mais antipáticos. Como isso acontece, parecia-me importante que as mulheres pudessem trazer identificação, uma forma de compreensão do que estava a acontecer, mais do que os homens.
A personagem principal, Meursault, não é descrito fisicamente, no livro. Cada um pode imaginá-lo de forma diferente. François Ozon, mostra a versão que idealizou de uma das figuras mais conhecidas dos clássicos da literatura:
É interessante que a personagem do Meursault seja uma personagem muito conhecida em França. Uma personagem da literatura, que faz parte do universo francês. O que é também interessante é que ele não é descrito no livro. Não há nenhuma descrição. Não sabemos a idade, não sabemos exatamente o que faz. Como tal, há muita liberdade.
E eu deparei-me com essa imaginação dos leitores. Todos têm o Meursault que imaginaram. Há pessoas que me dizem que ele não é nada assim. Outras que me dizem que sim, que ele é exatamente dessa forma. Eu imaginava-o assim, como está no filme. É a minha visão e talvez crie frustrações.
Ao mesmo tempo, era isso que era emocionante. Voltei a mergulhar nessa época. Camus escreveu o livro quando tinha 28 anos.
Quando vemos imagens de Camus na Argélia, nessa época, ele era muito bonito. Tinha o cabelo penteado para trás, parecia o James Dean. Pensei logo no Benjamin Voisin para interpretar a personagem.
Ao mesmo tempo, o papel era um verdadeiro desafio para ele. Porque, na vida, O Bejnamim é exatamente o oposto da personagem. É extravagante, sedutor, engraçado. Então, pedi-lhe para ser o contrário, para ser muito introvertido. Foi um verdadeiro desafio para ele.
“O Estrangeiro” foi rodadao a preto e branco. As paisagens de Argélia foram recriadas em Tanger, em Marrocos. A narrativa desenrola-se numa Argélia colonizada no século passado. François Ozon considera que o escritor franco-argelino antecipa o mundo atual:
O absurdo propósito de Albert Camus parece tornar-se real. As novas gerações revêem-se neste drama. Muitos jovens foram ver o filme e sentiram-se identificados com esta história.
Somos sempre estrangeiros para alguém. Hoje vemos isso claramente com o retorno das fronteiras, com as guerras na Europa, com a Ucrânia, com a ascensão da extrema-direita, Trump nos Estados Unidos, o que está a acontecer no Irão. Todas essas coisas parecem absurdas, toda essa violência.
O filme também nos permite questionar esses temas, o absurdo do mundo, como encontrar sentido nas coisas. Porque é verdade que não sabemos para onde é este mundo está a ir e não há racionalidade no que vemos e acho que Albert Camus estava ciente disso.
Porque, no fim de contas, Camus ataca todas as ideologias, quer seja o comunismo, o fascismo, todos os totalitarismos. De certa forma, é isso que denuncia Camus.

Em “O Estrangeiro”, Benjamin Voisin interpreta o protagonista, Meursault . O ator francês não podia recusar o convite para interpretar esta personagem única da literatura:
Quando nos propõem “O Estrangeiro”, lançamo-nos de cabeça e procurei muitos autores diferentes. E há uma frase que diz nada é mais belo do que aquilo que não existe.
Disse a mim mesmo que iria trabalhar aquilo que os meus olhos não veem. Tentar ser curioso sobre o passado e o futuro, para que o meu olhar não fosse comum. Foi assim que comecei a trabalhar a personagem de Meursault.
Achei interessante tomar a decisão de mostrar uma personagem que não segue as regras da sociedade. Alguém que se recusa a ser coagido, influenciado, que seja mais próximo de um animal. O animal acorda, come, descansa, acasala, tem descendência.
É isso a vida. Se acrescentarmos a inteligência, é magnífico. O animal tem acesso a muitas coisas, mas também tem acesso a tudo o que é trivial, a todas as situações a que somos obrigados. Na verdade, achei bonito que ele fosse um homem que não é obrigado a nada, que a nada se obriga.
Benjamin Voisin teve de contrariar a sua forma de ser, alegre e bem disposta, para transmitir no ecrã a falta de emoções que caracterizam a personagem. E foi a indiferença perante a morte da mãe que o condenou à pena capital, mais do que a frieza com que mata o homem árabe. O ator francês reconhece que na sociedade as emoções se sobrepõem aos factos, são um jogo social:
Hoje é revelador, vamos criticar a emoção em vez dos factos. E hoje, nas guerras que temos, nas guerras dos últimos anos, em todas as guerras que vivemos, e em outras que aconteceram há mais tempo, às vezes é a emoção que prevalece, às vezes são as lágrimas que prevalecem.
Outras vezes não queremos saber das lágrimas. Naquela época, matar um árabe não era considerado um crime. Por outro lado, não chorar descontroladamente pela morte da mãe significava que havia algo de criminoso nele.
Por um lado, cada um lida com as emoções como pode, mas por outro lado existem regras e jogos de sociedade. O jogo social é a emoção, as regras são a segurança, é não matar ninguém. Esta é a primeira regra, então isso é interessante.
Rebecca Marder tem o papel de Marie Cardona, a mulher com que Meursault se envolve. A atriz francesa já contava com a valorização da personagem feminina, algo habitual nos filmes de Ozon. A personagem assume um protagonismo que não tem no livro:
No romance, a personagem Marie Cardona é descrita fisicamente como uma figura do amor. Uma mulher raio-de-sol, a chama do desejo. Sabemos que ela é datilógrafa, secretária, sabemos muito pouco sobre ela.
Sabia que nos filmes de Ozon, nenhuma personagem feminina é deixada de lado. Sabia que ele iria dar-lhe uma outra dimensão e, no final, ele tornou-a na garantia da empatia. Ela é quem está ancorada no momento presente e também está sempre com os outros.
Ele deu-lhe o destaque. Há também duas cenas que foram adicionadas ao filme e que não existem no livro, incluindo uma cena em que Marie vai ao encontro da irmã do árabe assassinado. No julgamento vai falar com ela.
Sentimos que Marie é apaixonada por Meursault e que o ama. Mesmo nas histórias de amor não correspondido, temos mais sorte em ser aquele que ama do que aquele que não tem de rejeitar o amor. E sentimos-nos sempre mais vivos, mesmo que seja um amor não correspondido.
Para Rebecca Marder é surpreendente como Albert Camus já previa o que iria acontecer:
A guerra na Argélia, as outras guerras, o que se passa no mundo de hoje. Vivemos num mundo de imagens onde o obscuranturismo ronda e, acima de tudo, vivemos numa sociedade onde a imagem conta muito, mas temos a impressão de que prestamos mais atenção à forma do que ao conteúdo.
Vemos as páginas do Instagram de políticos que não fizeram nada antes e que aparecem assim, do nada. É muito estranho e acho que o filme também fala sobre isso, sobre uma sociedade que quer, imediatamente, colocar as pessoas em caixas e na normalidade.
Penso que Camus já anunciava um pouco o que iria acontecer.
O livro foi publicado em 1942 e, nessa época, já havia uma violência latente sobre o silêncio que era omnipresente. Havia uma violência latente e, portanto, era um pronúncio do que iria acontecer depois com a guerra na Argélia e todas as guerras que seguiram e que, aliás, ainda continuam. E todas as guerras que seguiram e que decorrem agora.
“O Estrangeiro” teve apresentação no Festival de Cinema de Veneza. É uma história existencialista, reveladora de como o julgamento social se pode sobrepor às regras da sociedade. Está em exibição das salas de cinema portuguesas.