Saltar para o conteúdo principal

12 Mar 2026

A chegada aos cinemas portugueses de “Kill Bill: Toda a Obra Sangrenta” repõe a visão original de Quentin Tarantino num único volume.

Considerado uma obra fundamental do realizador norte-americano, “Kill Bill” nasceu de uma premissa quase minimalista: durante a rodagem de “Pulp Fiction”, Tarantino e Uma Thurman partilharam conversas sobre géneros cinematográficos “caídos em desgraça” e a marginalidade do cinema de série B dos anos 70.

O realizador pretendia criar um filme de exploração célere, com cerca de noventa minutos, mas o processo de escrita, marcado pela sua incapacidade de refrear o fluxo de ideias e diálogos, resultou num argumento de dimensões monumentais que as exigências comerciais da Miramax forçaram a cortar em duas partes.

Esta versão integral, com mais de quatro horas, resgata a estrutura de capítulos e a narrativa não linear que Tarantino idealizou como homenagem à cultura visual que o formou e permite finalmente percorrer a viagem da Noiva de forma contínua, incluindo cenas que não integraram as edições de 2003 e 2004.

Descrito por Uma Thurman como um génio autodidata e “sem amarras”, Tarantino quebra as regras convencionais ao fundir artes marciais, crime e western spaghetti numa só história de vingança.

Cada nome na lista de alvos de Beatrix Kiddo — a Noiva, uma assassina temível concebida para ser a mulher mais mortífera do mundo — representa um subgénero distinto, permitindo que o filme funcione como um mosaico de referências, desde o cinema de samurais até aos clássicos de Kung Fu, onde a vingança serve como motor dramático central.

O elenco de “Kill Bill” é, também, um testemunho da capacidade de Tarantino em revitalizar carreiras e encontrar potencial em atores improváveis para o género de ação, como Vivica A. Fox e Daryl Hannah.

Além do desempenho inigualável de Uma Thurman, esta nova versão, revista e aumentada, permite voltar ao trabalho de Michael Madsen e, crucialmente, de David Carradine. A estrela da série “Kung Fu” encontrou aqui um brilhante último fôlego antes da sua morte em 2009. O ator enalteceu a mestria de Tarantino ao escrever a personagem de Bill, notando que o realizador utilizou a sua autobiografia para moldar um vilão cuja dicção é mais intelectual e literária do que a sua própria fala quotidiana.

Ao unir, por fim, os volumes originais, “Kill Bill: Toda a Obra Sangrenta” afirma-se como um grande épico de vingança, explosivo e trágico, onde a imaginação e a liberdade criativa de Tarantino se manifestam sem concessões.

  • CINEMAX - RTP
  • 12 Mar 2026 12:23

+ conteúdos