Saltar para o conteúdo principal

13 Fev 2026

“La Vie de Maria Manuela” é um documentário em exibição nos cinemas a partir desta semana e a primeira longa-metragem de João Marques. Em entrevista ao CINEMAX, o realizador traça o perfil da protagonista e desvenda os contornos desta obra de estreia.

Como conheceste a Maria Manuela?

Conheci a Maria Manuela inicialmente como muitas pessoas a conheceram. A Maria começou a partilhar alguns vídeos no YouTube e nas redes sociais, onde revelava este mundo meio mágico, pelo menos visualmente, muito extravagante, onde partilhava as suas pinturas, a forma como transformava os passos, também uma forma de apresentação visual muito interessante, como se vestia, etc.

A Maria acabou por se mudar para Lisboa no final de 2020 e foi aí que a conheci, pouco tempo após ela ter vindo para Lisboa. Chegámos a ser vizinhos, ou seja, não foi na primeira casa dela, mas acho que na segunda. Ela foi morar para muito perto de mim, tínhamos alguns amigos em comum, começámos a passar muito tempo juntos nessa fase inicial e foi daí que se iniciou esta aventura.

Maria Manuela Gomes nasceu na Estela, na Póvoa de Varzim, já neste século. Estamos a falar de um rosto no Instagram, no TikTok, nas redes sociais, também no Big Brother, um rosto de uma geração, conseguimos identificar bem a geração? Que geração é esta? Fazendo o bilhete de identidade…

É um tema muito apresentado no filme, uma geração que cresceu com as redes sociais, que cresceu já num contexto de estar inserido com a internet e estas influências todas que vêm de imensos lugares. Há esta relação com a imagem, ou seja, uma relação mais específica com a imagem, com os meios de comunicação, de filmar, etc. Também não sei bem como caracterizar. Nem sei se eu e a Maria estamos na mesma geração, mas penso que sim, é a geração Z. Eu sei que estou no último ano da geração Z, ali no limite.

E sentes-te parte dessa geração?

Diria que sim. Também cresci online, sinto-me bastante influenciado por isto tudo, pelas redes sociais e pela sua evolução ao longo dos tempos.

O Tumblr, por exemplo, que era uma rede social mais blog, na minha adolescência, onde consumia muitos excertos de filmes, fotografia… Sim. Acho que a Maria ainda se insere, penso que ela também é da geração Z.

O filme, de certa forma, é um ‘coming of age’, ao longo de quatro anos vamos vendo Maria Manuela Gomes mudar, a lidar com as dores do crescimento. E, se calhar, é um aspecto desta geração, a adolescência não fica lá atrás, não se faz uma verdadeira transição na casa dos 20 para os 30, para uma idade adulta. Não há uma nostalgia em torno da adolescência. Já na idade adulta é a adolescência que continua ainda a determinar também as escolhas, as relações, o modo como se está. Podemos concluir isto em função daquilo que o filme nos mostra?

Sim, parece-me que essa análise faz sentido. Outra vez, acho que ainda me enquadro neste processo, tenho mais quatro anos do que a Maria, mas sim, acho que é um tema de que se tem falado bastante, recentemente. Aparecem-me alguns estudos que falam do que é este período da adolescência e de quando nos transformamos em adultos, supostamente é cada vez mais tardio. Sim, acho que no filme vemos muito isso.

É curioso porque é tudo muito acelerado no nosso tempo e nas transições de gerações. Há ruturas muito marcantes de geração para geração, no século XXI, em função do ritmo que vivemos, do modo como nos relacionamos, de uma certa liquidez que existe no nosso estado do mundo, mas isso não representa forçosamente um amadurecimento, parece que esse amadurecimento é mais tardio. 

É sem dúvida um tema presente no filme, acho que podemos retratar um pouco essa nossa geração com essas características.

Dizias que o filme também é teu porque há uma ligação que se sente no filme, uma ligação entre realizador e protagonista que permite criar proximidades, consolidá-las. O que é que mudou no filme entre o ponto de partida e o final?

Acho que muita coisa mudou. Este é peculiar, de certa forma, porque o ponto de partida veio de um lugar puramente intuitivo e de curiosidade minha. Também sou fotógrafo, tenho desenvolvido algum trabalho fotográfico nos últimos anos e sinto que a minha prática fotográfica tem sido muito nesse sentido, de trabalhar com as pessoas que estão à minha volta, até comigo, autorretratos ou com os meus amigos.

Sinto que isto partiu realmente de uma ligação estabelecida com a Maria. Comecei a filmá-la e fui experimentando, fazendo algumas filmagens, algumas captações, até que chegou um momento em que, lá está, a minha curiosidade levou-me a propor-lhe.

‘O que achas de ir contigo uns dias para a tua casa no Norte, ou seja, em Estela? O que achas disso? Ia uma semana contigo e filmávamos coisas.’

Porque, na altura, ela também estava interessada nesta ideia de filmar a sua vida. Era uma pessoa que já se expunha publicamente, fazia vídeos, fazia algumas partilhas.

Ela concordou e foi assim que eu fui, inicialmente como uma forma muito de teste, muito à procura, a tentar perceber… Creio que isso está presente no filme, essa evolução na forma como fui captando ao longo do tempo e que me agrada, pessoalmente, acho que é muito interessante e também acaba por ser  um exercício que pode acontecer nestes processos documentais. Ir à procura do cerne da questão, ou do que nos interessa e o que pode ser mais relevante partilhar. Mas sim, sem dúvida, foi mudando ao longo do tempo.

Sinto que, com o passar das filmagens, houve esta fase inicial, depois houve uma produtora que se associou ao projeto, neste caso, a Promenade com o Justin Amorim.

De certa forma, foi ele que me incentivou a dar a continuidade ao projeto. Inicialmente, estava a fazer tudo muito para mim e depois, quando eles entraram, tive de começar a pensar mais a sério e a estruturar quais eram as minhas intenções.

Foi uma viagem em que a par da nossa relação pessoal, a par do crescimento da Maria e do meu crescimento, obviamente houve coisas que se foram alterando nas intenções e na direção do filme, o ponto de partida e o ponto de chegada, digamos, quando se escolheu parar de filmar. Foi, sem dúvida, um percurso transformador.

Há uma questão muito evidente e também própria deste tempo, desta geração. A questão da visibilidade, a questão da invisibilidade porque Maria Manuela é artista, é influencer, na forma como mostra a própria vida, mas declara que quando ninguém a vê é mais ela. Prefere ser visível, necessita de ser visível e o filme contribui para isso, ou deseja a invisibilidade?

É um tema que está muito presente nesta geração, com este contato mais próximo das redes sociais, há meio esta vontade e esse desejo de aprovação dos outros, de uma forma que talvez tenha sido diferente noutras gerações.

Recentemente há muito esta questão de querer aprovação que vem de um período mais entre a juventude e a infância, pelo menos é o que eu identifico, lá está, com algumas pessoas em que possam ter havido alguns conflitos  e de haver desafios nas relações.

Por exemplo, no caso da Maria, ela acabou por adotar esta forma de expressão mais extravagante, pelo menos para o contexto onde estava inserida, numa aldeia no Norte de Portugal.

Foi uma forma de ela tentar sentir-se aceite e compreendida nessa sua forma de expressão. Foi isso que ela foi fazendo ao longo do tempo. Depois, cria esta questão, até que ponto isto é uma personagem e quem sou eu realmente e quando posso estar confortável também no meu espaço.

Pode haver esse debate interior, mas lá está, nestas fases mais de juventude,  este e outros temas ainda são muito difíceis de gerir interiormente.

A pergunta é complexa, não se consegue obter uma resposta imediata e simples, o que nos leva a uma outra questão. Há cada vez mais pessoas que partilham a vivência em família nas redes sociais, no TikTok, no Instagram.

Está a chegar o momento em que o cinema também vai fazer isso? Ainda não há muitos filmes assim, mas há alguns e creio que o teu está claramente nessa galeria.

Sim, acho que este filme é um pouco peculiar nesse sentido, porque vem introduzir algumas coisas que agora fazem parte da nossa realidade, esta questão das redes sociais.

Das narrativas em ‘timeline’, nas redes sociais, e obviamente que o teu filme também tem isso, porque não é um filme sobre um momento específico, algo que acontece, um episódio, é claramente o tempo que também está lá. Não há diretos, mas há momentos documentados que corresponderam a diretos. 

Sim, há essa presença no documentário e foi uma coisa que me assustou um pouco. Acho interessante o exercício, mas senti que podia estar a ser menos convencional no contexto de um filme.

Sinto que, pelo menos da pouca experiência que tenho até agora… não tanto a pós-produção, não é? A pós-produção e a montagem foram um trabalho bastante longo. Mas a rodagem, como o filme se foi desvendando, o processo que tive com a Maria, muito intimista, era sempre só eu, filmei este filme sozinho, puramente, sempre. Levou-me a sentir que foi muito diferente dos outros projetos que fiz até agora.

Mas acho que é interessante abrir portas de comunicação com o atual, com estas mudanças que vão surgindo e como as coisas funcionam agora, neste mundo digital.

Sim, o documentário é, obviamente, sobre a vida em direto, inevitável pensar num filme que nos abre essa janela, do ponto de vista formal e narrativo, que é “Truman Show”. 

Sim, de certa forma, nunca pensei nisso assim, mas sim, de certa forma. E a todos os níveis, até do meu lado, acaba por haver em direto essa partilha também do que nós pensamos, do que sentimos.

  • tiago alves
  • 13 Fev 2026 16:24

+ conteúdos