Saltar para o conteúdo principal

05 Mar 2026

O realizador Mário Patrocínio construiu, na primeira longa-metragem de ficção, “Maria Vitória”, uma narrativa sobre “dores coletivas que atravessam gerações”, na relação dos portugueses com o país e consigo próprios, disse em entrevista à Lusa.

“Maria Vitória”, que se estreia na quinta-feira nos cinemas, é interpretado por Mariana Cardoso, Miguel Borges e Miguel Nunes, os atores que compõem o núcleo familiar desta história rodada na região da Serra da Estrela.

O título do filme remete para a personagem principal, uma adolescente (Mariana Cardoso) do interior do país, para quem o pai (Miguel Borges) sonha um futuro como guarda-redes profissional, num clube numa grande cidade.

Há ainda o irmão (Miguel Nunes), que regressa à aldeia depois de vários anos emigrado, confrontando a família com mágoas do passado, nomeadamente sobre a mãe, que morreu num grande incêndio que assolou a região.

Mário Patrocínio é autor de várias curtas-metragens e dos documentários “Complexo – Universo Paralelo” (2010) e “I Love Kuduro” (2013), rodados fora de Portugal.

Para esta primeira ficção, o realizador explicou em entrevista à Lusa que queria falar de Portugal: “Era absolutamente essencial falar das nossas dores, dores coletivas, dores que atravessam gerações, mas também falar de família, porque é um tema que me interessa muito”.

À medida que construiu o argumento, Mário Patrocínio foi identificando lugares que teriam um papel relevante na história, contactou com a população local e acabou por escolher a região da Serra da Estrela, para “olhar para Portugal não do ponto de vista de um lugar isolado, mas olhar para Portugal como ele é”.

Embora a trama familiar tenha temas universais – adolescência, confronto geracional, independência, luto -, Mário Patrocínio quis incluí-la no contexto dos incêndios, que todos os anos marcam de forma trágica o país.

O filme “acaba por ser uma homenagem à batalha, à resiliência das pessoas que vivem em determinadas regiões do país, que vivem num total abandono no que se remete ao Estado, à presença do Estado”, disse.

“Maria Vitória” representa igualmente uma estreia para a atriz Mariana Cardoso, de 22 anos, como protagonista em cinema, apesar de já ter feito televisão e teatro, e de ter experiência em dança, canto e desporto.

Mário Patrocínio escolheu-a numa fase ainda de escrita do argumento, por considerar que “os atores têm um contributo fundamental”, não só na interpretação na rodagem, como na própria construção do guião, e porque Mariana Cardoso era “completa” para o papel.

Em entrevista à Lusa, Mariana Cardoso sublinhou a importância da formação em teatro para poder dar corpo a uma personagem que é psicologicamente complexa, mas igualmente muito física.

“E ter trabalhado no Sporting em trampolins fez toda a diferença. E também na disciplina que eu própria tive de ter como atriz para poder, de repente, tornar-me guarda-redes e eu nunca tinha pegado uma bola”, contou.

Para Mariana Cardoso, o filme é sobre a família, sobre honestidade e verdade, sobre a incapacidade de diálogo e sobre “o recalcamento de emoções e de memórias”.

Com a estreia de “Maria Vitória” nos cinemas, Mário Patrocínio disse que foi difícil encaixá-lo “dentro do estereótipo do cinema português” e considera que há falta de diversidade de géneros nos filmes que são feitos em Portugal.

“Acho que existe imenso talento em Portugal, existe um potencial de contar histórias de formas diferentes, existem muitos géneros que podem ser desenvolvidos dentro da área do cinema, mas acho que nós, de alguma forma, acabamos por observar que estamos sempre muito unidimensionais nessa área”, disse.

Para esse diagnóstico, Mário Patrocínio aponta a escassez de fontes de financiamento, que afunilam as escolhas de projetos, e defende uma melhor rede de distribuição e exibição, “para que as pessoas tenham acesso a esse cinema”, seja em sala ou na televisão.

E sublinha que a importância da cultura: “Seja a literatura, seja a música, seja bailado, seja pintura, seja o que for, ajuda-nos a refletir sobre o mundo, ajuda-nos a refletir sobre nós. E isso, para mim, é uma potência enorme de construção também de um país e eu acho que isso devia ser uma prioridade”.

“Maria Vitória” é uma produção de Ana Pinhão Moura e, antes de chegar ao circuito comercial, foi exibido no Festival Internacional de Cinema de Tóquio e no Lisboa Film Festival.

Enquanto este filme se estreia nos cinemas, Mário Patrocínio tem em curso a produção do filme “As mulheres do meu pai”, a partir de uma obra do escritor angolano José Eduardo Agualusa. Será um ‘road movie’ a filmar na África austral em 2027 e contará com a atriz brasileira Thaís Araújo no elenco, disse.

O realizador e argumentista está a trabalhar também na adaptação de “Jesusalém”, do escritor moçambicano Mia Couto, de quem já tinha adaptado o livro “O afinador de silêncios” para uma curta-metragem.

  • LUSA
  • 05 Mar 2026 17:01

+ conteúdos