Olivier Assayas: “As técnicas de propaganda contemporânea são construídas sobre um modelo de Luís XIV”
"O Mago do Kremlin" analisa os labirintos do poder e a ascensão de Vladimir Putin. Em entrevista ao CINEMAX, Assayas atravessa as memórias da esperança democrática russa dos anos 90 e critica a atual deriva populista no Ocidente.
O filme “O Mago do Kremlin” surgiu a partir do livro do escritor italo-suíço Giuliano da Empoli. A novidade, a forma como apresenta os bastidores e os jogos políticos de um regime ditatorial, seduziu o cineasta francês Olivier Assayas a realizar mais um filme sobre o poder:
Atraiu-me precisamente o facto de ter feito alguns filmes sobre a questão do poder, sobre a questão da política contemporânea.
O que me apaixonou no livro foi que fala sobre isso de uma maneira nova, ou seja, fala da forma como o mundo está a mudar e como as modalidades da política estão a mudar. Creio que ele capta isso de uma forma que o cinema nunca captou.
Tenho a impressão de que no livro ele faz algo novo. Isso dá-me oportunidade de falar de política de uma maneira nova, contemporânea, sincronizada com as mudanças profundas e perturbadoras do mundo atual.
Olivier Assayas não põe de um lado as ideologias e do outro lado a pessoa que as segue. Não se podem separar. Essa é a abordagem que guia o filme “O Mago do Kremlin”. O cineasta francês não esconde a crueldade dos acontecimentos, apresenta uma visão realista dos mesmos:
A questão do poder e a questão da política é uma abstração. É uma esfera abstrata na qual há, de facto, o humano, mas há também o ideológico.
O humano e o ideológico não se encontram necessariamente. Eles podem facilmente entrar em conflito ou mesmo em contradição.
É verdade que quando se faz um filme, ou se escreve um romance que trata de política, inevitavelmente há algo de humano que se insinua, porque é o humano que faz com que nos interessemos por uma história, que aceitemos os seus princípios e, acima de tudo, que a sigamos até às suas consequências.
Quando se trata de ideias, pode haver pessoas apaixonantes que têm ideias terríveis, ou com as quais estamos em profundo acordo.
Há uma citação de George Orwell em que penso frequentemente. Não gosto de mundanidades, não gosto de sair de casa à noite porque tenho medo de encontrar inimigos e de os apreciar.
Relativamente ao poder, tive vontade de mostrar a sua crueldade e brutalidade. Tento representar estas questões da forma mais verídica possível e historicamente mais correta.

Na adaptação ao cinema do romance “O Mago do Kremlin”, Olivier Assayas contou com a colaboração do também escritor e realizador francês Emmanuel Carrère para escrever o argumento.
Vladislav Surkov, conselheiro e ideólogo das políticas de Vladimir Putin, serviu de inspiração ao livro, mas o filme procura fugir ao lado mais negro dessa figura do regime russo:
No início, nem sabia da existência de Vladislav Surkov. Depois, percebi que o livro se inspirou nessa personagem em alguns aspetos. O escritor não tomou Surkov como modelo, mas usou a singularidade dele para contar algo que lhe interessava e que uma personagem desse tipo poderia representar e encarnar. Quando percebi quem era Vladislav Surkov, quando começamos a trabalhar o argumento, sentimos necessidade de nos afastarmos o máximo possível dessa personagem, na escrita e ainda mais no momento das filmagens.
No filme permanece a sombra de Surkov, que já está presente, mas há muito poucos factos específicos. Não há qualquer tentativa de imitação. Pelo contrário, há uma forma de analisar, teoricamente, o que ele representa e o que ele pode ter representado num determinado momento. Digamos que tentamos evitar os aspetos mais repugnantes da sua personalidade.
“O Mago do Kremlin” mostra a ascensão de Vladimir Putin ao poder e as técnicas de propaganda que conduzem ao populismo. Durante a escrita e as filmagens, Olivier Assayas pensou várias vezes no filme “A Tomada do Poder por Luís XIV”, de Roberto Rossellini. Considera que não poderia ser mais atual:
À primeira vista parece paradoxal, mas acredito que não seja. Penso que até o argumento já devia estar escrito quando revi esse filme.
Fiquei extremamente impressionado, até mesmo surpreso, com o quanto ele se assemelhava ao que tinha em mente. Falei sobre isso com Giuliano Di Empoli, que me disse, olha, estou espantado por dizeres isso, porque eu próprio senti a mesma coisa quando escrevi o livro.
A forma como o poder paralisa os opositores utilizando jogos de espelhos e onde as aparências contam mais do que a realidade é algo que, no fundo, era idêntico quando Luís XIV impôs o seu modelo de poder. Fico com a impressão de que as técnicas de propaganda contemporânea são, no fundo, construídas sobre um modelo muito semelhante.
Apesar da sensibilidade do tema, Olivier Assayas não sentiu censura direta à possibilidade de realizar o “O Mago do Kremlin”, mas reconhece que teve dificuldade em arranjar financiamento:
Fazer o filme em língua inglesa ajudou. A escolha deste idioma é recorrente na obra do cineasta francês, que assinou longas-metragens como Agente Infiltrada, “As Nuvens de Sils Maria”, ou “Personal Shopper” e “Rede de Espiões”:
É claro que teria preferido fazer o filme em russo e filmá-lo na Rússia, mas isso era inimaginável. Também não era possível termos atores russos, porque no dia seguinte eles teriam sido proibidos de exercer a profissão.
Gosto de filmar com grandes atores, como gostam todos os cineastas. De certa forma, faço cinema que é cinema de atores. É isso que me permite fazer os filmes que faço, por vezes mais ambiciosos do que os do cinema francês. Há muito tempo percebi que era bom fazer filmes em inglês, porque isso abria portas, dava-nos acesso a atores aos quais não teria acesso no âmbito mais restrito do cinema independente francês. Como sou um produto puro do cinema independente francês, digo isso com muita amizade, gratidão e respeito, mas há o limite da língua.

Paul Dano, Alicia Vikander e Jude Law integram o elenco. Olivier Assayas pensou logo na atriz sueca:
Escrevi o filme a pensar na Alicia Vikander. Desde o início pensei que ela seria a Xenia, uma personagem que inventei, uma personagem muito mais presente e muito mais importante. Diria que é até crucial no filme, enquanto no livro é apenas uma silhueta, uma sombra que passa.
Quanto a Paul Dano, foi uma escolha que se impôs. Foi óbvio desde o início, porque precisava de um ator americano com uma certa notoriedade que pudesse ser credível, tanto como jovem quanto como homem maduro. Além disso, ele tem algo de eslavo que faz com que, através dele, contemos algo verdadeiro.
Da mesma forma que Alicia Vikander, que é escandinava, também traz algo de exótico, que se integra bem no filme. Com o Jude Law, sendo ele inglês, não se parece assim tanto com Vladimir Putin. Foi a escolha que fiz. Ia buscar um ator desconhecido que fosse parecido com Putin, ou escolhia um grande ator que pudesse reinventar Putin por dentro, na sua complexidade, nas suas diferentes camadas. A escolha Jude Law impôs-se rapidamente.

“O Mago do Kremlin” traz às memórias de Olivier Assayas a viagem que fez à Rússia, nos anos 90 do século XX, quando os jovens acreditavam na mudança:
Não conheço bem a Rússia, não vou dizer que sou um especialista da Rússia pós-soviética, nem imaginava que um dia iria fazer um filme que falasse dessa época e do que se passa agora na Rússia. Fui duas ou três vezes à Rússia. Uma delas marcou-me muito, foi no início dos anos 90, quando conheci estudantes de cinema. Eram representativos da juventude da época, tinham vivido sobre o julgo do stalinismo até 1989. Finalmente, as portas da liberdade pareciam abrir-se e eles iriam beneficiar disso. Vi a fé que essa geração tinha no futuro, mas aconteceu exatamente o contrário. Vi como tudo foi brutalmente esmagado pelo poder de Putin, não pude deixar de pensar nos jovens que conheci e na forma como as suas esperanças foram destruídas.
Foi algo que queria contar, a ascensão de Putin e do ‘putinismo’ e a consequência que isso teve na destruição da esperança democrática que se instalava antes dele e dos seus amigos do FSB, os responsáveis da segurança interna do Estado Russo, retomarem o controlo. Podemos pensar que ainda há esperança, mas a Rússia continua a ser um país onde se assassinam os opositores e onde se praticam todas as formas de censura. Não é um lugar onde se respire a liberdade, não é.
Para Olivier Assayas é igualmente difícil aceitar que a política de Donald Trump nos Estados Unidos esteja cada vez mais próxima da linha ideológicas da Rússia, populista e afastada da democracia:
Há algum tempo que já compreendemos até que ponto a Rússia de Putin se afasta das normas democráticas que, infelizmente, nunca foram implementadas durante muito tempo na Rússia. Putin ainda fechou a porta mais violentamente e, por mais que sempre tenha tido aversão à personagem de Donald Trump, não imaginava até que ponto ele iria tão longe numa abordagem que podemos qualificar de ‘putiniana’.
Ou seja, Trump utiliza métodos políticos inventados, ou validados, pela Rússia de Vladimir Putin. Aterroriza-me ter de formular isto assim, mas a democracia e o sistema de poder e contrapoder americano está a decompor-se diante dos nossos olhos. E o que mais me aterroriza é o facto de não haver oposição, ou de a oposição ter dificuldade em impor-se, em expressar-se, ou em encontrar a linguagem adequada para se dirigir à população, aos americanos.
O cineasta não quer dar conselhos, ou sugestões, para os caminhos da democracia, mas elege Alexander Navalny como um herói:
Acompanho a atualidade política, interesso-me por ela porque é o mundo em que vivo. Constato que, neste momento, acontecem coisas que antes seriam inimagináveis. O que estamos a assistir já dura há muito tempo.
Há vários anos que lidamos com o pior que está para além do que poderíamos imaginar, mas talvez no futuro esteja para vir algo melhor. Não tenho lições a dar às pessoas. Bem, quer dizer, para mim Alexei Navalny é o meu herói, alguém que representa o heroísmo, a coragem da oposição russa e é uma razão para acreditar, uma razão irracional para ter fé no futuro deste país. Mas quem sou eu para dar lições sobre esse tema a partir do conforto de um hotel no oitavo bairro de Paris?
“O Mago do Kremlin” é um thriller político, um encontro com a atualidade, revelador da chegada de Vladimir Putin ao poder na Rússia. Estreia esta semana nos cinemas portugueses.