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“Onde Nascem os Pirilampos”, a primeira curta-metragem de Clara Vieira, realizada na Escola Superior Teatro e Cinema, está na Programação de Escolas, a Cinef, do Festival de Cannes.

O que significou esta seleção? Estava dentro das tuas expectativas, ou era algo que imaginavas como muito difícil de concretizar?

Acho que era uma coisa que era muito difícil de concretizar. Não tenho exata noção do que isto implica, se calhar por inexperiência minha, se calhar não estou a ver a dimensão de tal coisa, mas é uma validação muito grande para qualquer cineasta.

Para uma pessoa que está a começar acho que é um ótimo começo. Estou muito feliz e muito grata pela seleção. Foi uma experiência muito stressante, mas, ao mesmo tempo, muito entusiasmante por estar a conhecer tanta gente.

Estás apenas há algumas horas no Festival, antes da apresentação da tua curta-metragem. O Festival está a corresponder àquilo que imaginavas? A dimensão do Festival, o movimento, a quantidade de pessoas?

Tinha a sensação de que era muito maior. Mas sim, a movimentação é bastante grande, há imensa gente que vem aqui só para tirar fotografias. Há cruzamentos de várias pessoas com missões e propósitos diferentes em contexto de Festival. E isso é muito interessante, ver o cruzamento destas áreas todas, porque não são só os cineastas que estão aqui.

Esperas que esta presença no Festival, na Cinef, seja importante para um filme que pretendes desenvolver a seguir, para um projeto que já tenhas?

Sim, ou seja, estou muito otimista que sim. Neste momento já estou a escrever a minha próxima curta-metragem, também a pensar numa longa, numa primeira longa. Espero que ser selecionada para esta secção me dê a oportunidade de desenvolver uma primeira curta fora do contexto de escola.

“Onde Nascem os Pirilampos” é a curta que terás cá e obviamente que se impõe uma pergunta. O que representam os pirilampos no teu imaginário? Onde é que despertou o teu interesse pelos pirilampos?

Os pirilampos são uma ideia abstrata para mim, porque nunca os vi. Talvez esse lado mágico surja do meu imaginário mesmo, de onde é que eles aparecem. Se calhar também tem influências em filmes infantis como “A Princesa e o Sapo” em que aparecem pirilampos a um certo ponto.

No meu primeiro encontro com os quatro atores selecionados para as personagens secundárias, a rapariga contou a história de como dois deles, que namoram, se tinham conhecido e como se tinham beijado pela primeira vez, e ela começa a contar aquilo, que começou a chover no momento em que se beijaram… inventou um cenário dela e eu usei essa história para o filme.

Ou seja, a história foi mesmo construída com aquele grupo de pessoas. Na escola, queríamos trabalhar a luz, era uma coisa que nos interessava trabalhar. E como a luz influenciava o percurso emocional das personagens, era algo que queríamos trabalhar, mesmo a nível pedagógico quase, de interesse em aprender a filmar e a iluminar à noite.

Então trouxemos a ideia dos pirilampos, sendo eles luz, e porque o filme toca em assuntos relacionados com a ecologia e o estado do planeta, achámos que era pertinente trazer os pirilampos, já que eles estão em extinção. Achamos que era um ótimo casamento, nesse sentido.

Disseste que o filme é colaborativo, reuniste um grupo de amigos e, de certa forma, o desenvolvimento do filme passou por ir acampar durante um, dois, três dias…

Foi uma coisa que ponderámos na pré-produção, mas como era inverno não conseguimos mesmo fazer isso. O grupo de amigos estudou na mesma escola de teatro onde eu estudei, sabia que eram todos amigos e uma das coisas que queríamos muito no casting, para desenvolver o argumento e também por uma questão de não termos tempo era pegar num grupo de amigos que já tinha uma dinâmica e uma amizade para construir a história.

Sendo eles da nossa idade, achamos que era pertinente trazê-los para o debate e discutir este tema da ecologia e do futuro e de não percebermos bem como as coisas vão acontecer para nós e, no fundo, criar a história em função deste grupo. Uma ficção à volta de um grupo de amigos que já existe.

Porém, a personagem principal não faz parte deste grupo de amigos original. Conheci-o numa batalha de rap porque, pronto, ele faz rap. Ele é mesmo impressionante, uma pessoa mesmo única. Quando o convidei para fazer o filme tive a certeza de que ia ser uma ótima aposta porque é uma pessoa que me ajudou a olhar para a escrita e para o cinema e para o rap quase como se houvesse uma relação muito forte entre as duas coisas. Não de forma literal, como aparece no filme, mas de forma mesmo de escrita e de como os conceitos conseguem relacionar-se entre si.

O grupo, no fundo, vai desenvolvendo também algumas das situações e dos diálogos e das dinâmicas que depois se refletem na ficção. Vão criando momentos, diálogos, situações que depois acontecem na ficção. Há, claramente, uma apropriação do real através da tua ficção?

Sim. Acho que há um interesse meu em documentar, ou seja, não no formato documentário, mas em trazer características e a personalidade de pessoas reais para a ficção. Porque acho que isso é super interessante e porque isso é o que, para mim, torna as coisas mais sui generis. Porque estamos a pegar em corpos reais que fisicamente, emocionalmente, são diferentes uns dos outros e, portanto, trazer isso é sempre muito mais interessante do que ser eu a impor uma personagem a alguém. Mais especificamente neste filme, obviamente.

Qual era a tua expectativa relativamente ao filme que pretendias concretizar e como o vês agora, depois de concretizado, face aos imprevistos que surgiram e até a esse improviso que referes que aconteceu de ir envolvendo as pessoas e pondo em prática determinadas ideias?

Eu acho que as ideias ficam sempre um bocado para trás. O que importa é aquilo que se faz no dia da rodagem. Não há mesmo como prever. Podemos saber exatamente quais os planos que vamos fazer, ter a dinâmica, mas as ideias ficam sempre no papel.

Para mim, o argumento é só uma forma de organizar tudo o que pode acontecer, mesmo para a equipa. Porque não é só uma questão de direção de atores é uma questão de dirigir também a equipa. O papel não é uma coisa importante porque onde acontece mesmo o filme é no dia da rodagem. Mesmo a nível emocional, tudo acontece ali. Nos ensaios pode acontecer a coisa mais fixe de sempre, mas depois, se na rodagem aquilo não está, não interessa.

Os imprevistos na rodagem acabaram por contaminar muito o filme, de certa forma, posteriormente à montagem. Sinto que não tinha uma espécie de expectativa de como o filme ia ficar porque também não tivemos tempo para isso. Com o pouco tempo que tivemos de pré-produção, não criei uma expectativa, não tive tempo para me iludir, nem para me desiludir. Isso, se calhar, é uma vantagem de trabalhar sob pressão nestes contextos. Não tinha uma expectativa e depois só fui descobrir sobre o que era o filme quando o vi.

De repente, perguntam-me o que é o filme e eu tenho de o ver e perceber que ele é, como ele está. Não interessa aquilo que eu queria comunicar, porque o que interessa é aquilo que está. Essa é a parte mais desafiante, depois, é trabalhar essa parte do discurso e, não sei, debater o filme novamente com os meus colegas. Mas sim, é muito interessante, é um debate interessante.

  • tiago alves
  • 21 de Maio de 2026, 13:32

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