Pedro Cabeleira: “O Entroncamento sempre foi uma cidade feita de migrantes”
Na sua segunda longa-metragem, Pedro Cabeleira regressa às origens para converter a cidade ferroviária em matéria-prima cinematográfica. O realizador explora as tensões numa comunidade em mutação, onde a precariedade serve de cenário a um mosaico humano que desafia preconceitos.
“Próxima estação, Entroncamento”. Ouvimos isso dezenas de vezes nas viagens que fazemos no Vai e Vem da Linha do Norte, entre as cidades principais, Porto, Aveiro, Lisboa, Santarém. Muitas vezes não saímos, mas há um filme que nos convida a ir ao “Entroncamento”, a segunda longa-metragem de Pedro Cabeleira, convidado do CINEMAX. É o reencontro com o cineasta que há um ano apresentou o filme na secção ACID do Festival de Cannes.
“Entroncamento”, pode agora ser visto nos cinemas nacionais e começamos precisamente pela tua ligação a este lugar. Esta paragem não acontece por acaso. Convém começarmos por aí, pela tua ligação com o Entroncamento. Pedro Cabeleira, cidadão do Entroncamento?
Sim, criado lá. Nascido em Tomar, porque era a maternidade mais próxima, mas passado uns dias já estava no Entroncamento. Portanto, para mim foi uma paragem logo no início da minha vida.
Pareceu-te evidente que era um bom lugar para uma ficção como esta?
Sim, teve a ver com o facto de me sentir privilegiado em retratar um lugar que nunca tinha sido retratado e por ter uma proximidade com esse espaço que ainda estava por explorar. Acho que foi isso. Porque eu acredito que praticamente tudo pode ser matéria-prima de um filme, depende da forma como abordamos as coisas. Tem sempre a ver com o ponto de vista e com a nossa ligação com os temas e com os espaços, os lugares, as pessoas. Senti isso, que havia uma vantagem no fato de eu ser do Entroncamento e de o Entroncamento nunca ter sido explorado em cinema.
Mudou muito o Entroncamento, a cidade ferroviária, como lhe chamas?
Ao longo do tempo, sim. É uma cidade que está a mudar também por a periferia de Lisboa estar a mudar e por Lisboa também está a mudar. O mercado imobiliário pôs as casas caríssimas para as pessoas que viviam no centro de Lisboa, e essas pessoas fugiram para os subúrbios, o que empurrou as pessoas dos subúrbios para zonas ainda mais longe. O Entroncamento acabou por se transformar nos últimos anos por causa disso, o que é perfeitamente normal. Os fenómenos migratórios acontecem e a cidade do Entroncamento sempre foi uma cidade em transformação, uma cidade feita de migrantes.
No início vieram de outros pontos do país para trabalhar na ferrovia, foram para o quartel militar, portanto o Entroncamento sempre foi uma cidade de receber pessoas de outros sítios. Agora, as novas pessoas que estão a chegar ao Entroncamento são pessoas que estão a sair do subúrbio de Lisboa.
A cidade mudou, mas há muitas coisas que a cidade mantém. Estive a viver lá dois anos. Obviamente, os sítios nunca são os mesmos quando crescemos num sítio e voltamos e nós também mudamos enquanto pessoa. Mas há coisas que voltamos a rever e senti que houve muita coisa que o Entroncamento manteve.
“Isto é um reflexo de más políticas de habitação já há vários anos. Depois vem tudo em escadinha e há aproveitamento político deste tipo de situações de maneira errada.”
Por exemplo?
Vou ao café e ainda encontro algumas pessoas, o Pingo Doce, aonde eu ia em criança, está no mesmo sítio. A Rosa, a cabeleireira que me cortou o cabelo quando era criança, ainda tinha lá o espaço. Aliás, ela aparece no filme, a Ana Vilaça, a personagem da Laura, vai-lhe pedir emprego.
Portanto, houve coisas que se mantiveram. E faz parte. Algumas pessoas estão mais velhas. Mas sinto que há coisas que acabaram por estar mais ou menos parecidas e há muitas conversas que são iguais. E há amizades que tenho lá e que ainda mantenho.
Sentes-te confortável?
Sim, gosto das pessoas do Entroncamento São pessoas com as quais cresci, é como se fosse uma espécie de família. Porque é uma cidade pequena e as relações que se estabelecem ao longo dos anos acabam por ser muito semelhantes a relações familiares. O Entroncamento tem essa comunidade que se cria. Tanto para o bem como para o mal.
Há coisas menos boas de comunidades muito fechadas, mas também tem coisas muito boas. Por exemplo, quando estive lá a filmar, tive muito apoio da população, das pessoas que me conheciam de criança, dos meus amigos, houve pessoas que participaram, que se disponibilizaram a ajudar no que fosse preciso para o filme. Portanto, só tenho a dizer coisas boas do ponto de vista de como sou recebido lá e de como sou tratado.
Mesmo agora, há um grande entusiasmo das pessoas de lá em partilharem coisas sobre o filme. Veio muita gente do Entroncamento assistir à estreia no São Jorge. Portanto, sinto que são pessoas que apoiam e que gostam das pessoas da terra.
Há outras questões mais relacionadas com certo tipo de discurso que cresceu muito nos últimos anos e que parece ter metido as pessoas em tribos. Parece que há uma tribo contra outra tribo, ou há uma cultura contra outra cultura, e isso, de repente, faz com que as pessoas tenham outras conversas. Mas eu, enquanto Pedro, sempre me senti muito bem acolhido no Entroncamento.

Percebendo a mudança na relação do Entroncamento com Lisboa, que conheces bem, podemos definir que o Entroncamento continua a ser esta cidade ferroviária na margem da linha, com uma certa ruralidade, mas onde já se vive numa lógica de dormida, digamos assim, que se habita dessa forma para ir a Lisboa regularmente fazer a vida quotidiana?
Não quis utilizar a expressão ‘cidade dormitório’, mas acho que faz sentido. Não devemos ter problemas demasiados pruridos. Eu sou de lá e não tenho problemas em dizer isso.
Houve uma fase nos anos 90 e no início dos anos 2000 em que o Entroncamento tinha muita vida, mas era uma fase em que ainda era criança e não saia à noite, não me lembro como era a vida noturna do Entroncamento, mas há muitos anos que já sentia que o Entroncamento era uma cidade dormitório. E é normal. O facto de ter uma estação mesmo no meio da cidade, quase todos os pontos da cidade estão próximos da estação, faz com que seja um local perfeito para as pessoas que trabalham em sítios que têm menos acesso à habitação.
Por exemplo, o meu pai trabalhava em Lisboa quando eu era criança e viajava de comboio diariamente. Agora, quando lá estive a viver, também estava a fazer um projeto em Lisboa e também me chegou a acontecer ir e vir diariamente. Era curioso, porque ia no comboio das seis e quarenta da manhã, que nem é dos primeiros porque há outros antes, e é curioso porque começamos a ver as mesmas pessoas todos os dias.
Tendo em conta o que disseste, a questão da habitação, o Entroncamento pode não aumentar em extensão urbana, os limites estão mais ou menos definidos do ponto de vista urbanístico, mas aumenta do ponto de vista das pessoas que de repente vivem no Entroncamento e são de Lisboa, ou fazem vida em Lisboa?
Sim, completamente. E cada vez mais pessoas que vivem em Santarém e no Entroncamento e que todos os dias vão trabalhar para Lisboa. Há um ou dois anos havia polémicas porque o regional que vai para Tomar e passa em Santarém, no Entroncamento e na Azambuja, estava constantemente à pinha. As pessoas nem conseguiam respirar. Isto é um reflexo de más políticas de habitação já há vários anos. Depois vem tudo em escadinha e há aproveitamento político deste tipo de situações de maneira errada.
O filme tem obviamente essa atualidade. Há uma linha férrea que, de certa forma, nos leva ao filme e passa pelo Entroncamento, mas também há diversas linhas narrativas porque é um filme coral, um filme mosaico.
Há uma personagem nuclear, a Laura, que já referiste, interpretada pela Ana Vilaça, que se muda do Porto para o Entroncamento, que vive numa certa margem, de trabalhos precários. Estabelece novas relações, mas num contexto de algumas traficâncias, de alguma criminalidade. Isso é muito visível no Entroncamento, ou é o teu filme que dá essa dimensão à cidade, do ponto de vista sociológico?
Acho que não é diferente de outras cidades. É uma cidade pequena e esse mundo dos pequenos delitos existe em qualquer lado.
A diferença é que agora há um filme que mostra especificamente o que acontece no Entroncamento.
Exato. Há várias razões para eu ter feito isso no Entroncamento.
Primeiro porque estive a fazer um videoclipe de gangsta rap e o imaginário do gangsta rap é um imaginário que está associado a isso. Não significa que as pessoas que façam gangsta rap sejam automaticamente criminosas, ou pratiquem delitos. Tem a ver com o imaginário, tal como quando fazemos um filme não significa que sejamos criminosos. Tem a ver com realidades que nos interessa trabalhar.
Quando fui fazer esse videoclipe com o meu amigo criámos uma história que tinha a ver com esse imaginário. Gostei de fazer um videoclipe nas ruas onde tinha crescido e de trabalhar com as pessoas de lá, que não eram atores profissionais. A ideia foi trabalhar esse imaginário a partir daí, de situações que podem acontecer em qualquer lugar e que se passaram naquela terra, mas não acho que o Entroncamento tenham mais criminalidade do que outros sítios.

Ao colocares o foco nos pequenos delitos estás a focar uma série de personagens que também estão deslocadas e não cresceram no Entroncamento como tu, uma rede de traficâncias muito contemporânea. Houve uma necessidade de aprofundares os teus contactos para dominares melhor esse universo do ponto de vista narrativo e na definição das personagens?
Não. Acho que tem muito a ver com a imaginação e o trabalho com os atores. Também tem a ver com o calão e como eu sou de lá também conheço bem o jargão e tive o cuidado de escolher atores que dominassem o jargão, ou que fossem de periferias. Por exemplo, o caso do Tiago Costa que é da periferia de Lisboa mas que tem um jargão semelhante, o caso do André Simões, eram atores que dominariam o jargão e depois ter pessoas de lá e acho que tem um bocadinho a ver com isso.
“Pode ser que o filme, em vez de estar a polarizar, faça precisamente o oposto, de fazer com que as pessoas se identifiquem umas com as outras e dar pontos de vista…”
Ou seja, integrar não-atores que, de resto, se revelam no filme e tornam determinados momentos muito impactantes, o filme tem obviamente essa qualidade. Foi determinante, nomeadamente, a comunidade cigana, podemos focar isso?
Sim, sem dúvida, havia umaa proposta de trabalhar a complexidade das dinâmicas sociais que existem no Entroncamento.
A população cigana no Entroncamento tem muita expressão. Ao tentar fazer um retrato da cidade, interessava-me trabalhar essas complexidades sociais e, desde o início, queria ter personagens ciganas no filme, mas havia uma proposta minha: que todos os personagens ciganos teriam que ser representados por pessoas ciganas, não havia volta a dar. Se não existissem pessoas ciganas para fazerem essas personagens, então, com grande pena minha, não iriam estar no filme, porque mais grave do que não trabalhar essas dinâmicas sociais, era pôr representações erróneas, ou coisas que para mim não fariam sentido.
Houve então um grande cuidado em encontrar pessoas ciganas que tivessem disponibilidade para fazer essas personagens. Existem pessoas ciganas que também são atores, mas não fazia sentido para o filme trazer essas pessoas. Depois, falei com a Maria Gil, que é atriz e também entra no filme, faz de mãe do Gilinho, uma das personagens principais do filme. Ela sugeriu-me o Henrique Barbosa, um rapaz que ela tinha conhecido em Coimbra. Lembrava-se dele quando era adolescente. Passou-me o contato, finalmente consegui entrar em contato com o Henrique que, felizmente, aceitou fazer essa personagem.
Ao contrário de outros que só aparecem uma ou duas vezes, o Gilinho atravessava o filme todo e exigia não só disponibilidade da parte de uma pessoa que não era ator profissional na altura, que era o caso do Henrique e exigia também talento, capacidade e generosidade para se fragilizar, porque o o Henrique trouxe muita fragilidade ao Gilinho. Fragilidade no bom sentido, ou seja, a fragilidade humaniza, tira estas personagens do lugar da caricatura e faz com que nos identifiquemos com a personagem.
Principalmente no caso do Gilinho, estamos a falar de personagens cigano, mas estamos a pensar ele é cigano, ou cabo-verdeano, ou branco. Estamos a empatizar e a sofrer com os dramas dele e acho que foi fundamental ter alguém cigano a fazer isso. O Henrique é uma pessoa muito especial e as fragilidades que ele trouxe humanizaram muito a personagem.

O desempenho do Henrique é claramente uma revelação, o desempenho dele dá um peso, uma gravidade à personagem que é surpreendente, concordas com isso?
Sim, inteiramente. O que o Henrique trouxe para o filme foi uma coisa que não estava no argumento e que, na verdade, foi um risco da minha parte porque estava a retratar uma realidade que não era a minha e a confiar muito que a pessoa que viesse fazer o Gilinho trouxesse coisas que eu não conhecia e o Henrique trouxe essas coisas e trouxe-as ainda muito mais do que eu estava à espera. De repente, consegue trabalhar todas as complexidades que eu queria imprimir no filme, principalmente a relação da população cigana com o resto da comunidade e o Henrique conseguiu retratar isso e trazer muita humanidade ao Gilinho.
Honestamente, sinto que são pessoas como o Henrique que podem ajudar a quebrar preconceitos. Hoje em dia há muito a coisa de se generalizar e de quase desumanizar pessoas que são de outras culturas e a população cigana esteve muito sobre ataque nos últimos seis anos, está constantemente a ser alvo de ataque. Pessoas como o Henrique, de repente, fazem com que se traga humanidade e o que o Henrique fez com o Gilinho pode trazer uma humanização que tem vindo a perder-se nos últimos anos. O filme cumpre isso, obviamente com outras personagens, personagens africanas e de leste que se vão cruzando.
“Gosto de trabalhar o filme de um ponto de vista de sensações e emoções…”
Há aqui questões económicas, questões de um meio conservador relacionadas com uma identidade muito masculina e há um contexto político que se relaciona com o que acabamos de falar, a existência da comunidade cigana no Entroncamento. O filme, de certa forma, mostra o que se passou no Entroncamento para explicar que seja uma das câmaras governadas pelo Chega desde 2025?
Creio que o filme tem chaves que podem ajudar a uma leitura, a perceber porque é que o discurso do Chega ganhou tração num sítio como o Entroncamento. Tem muito a ver com a astúcia do líder do Chega. O primeiro alvo dele foi a população cigana. Porque ele sabia que eram territórios que tinham dinâmicas muito frágeis com a comunidade cigana e foi onde ele começou a ganhar o seu público. Em 2020, quando ele começa a ganhar tração, comecei logo a ver pessoas com as quais eu tinha crescido a partilharem coisas. Logo aí, comecei a perceber o que estava a surgir, que ele estava a ganhar tração. Ao passar mais um, dois anos, deu para perceber que ele estava a estender-se a muitos outros sítios. Ele começou a falar para essas pessoas, para começar a ganhar território e a estender o ataque aos indianos, etc. Mas aquilo começou muito localizado.
Acho que o filme tem chaves para perceber porque é que as pessoas do Entroncamento acabaram por ser muito permeáveis a esse discurso. Primeiro, com a questão da população cigana, depois ao trazer estas ideias falsas de insegurança. No Entroncamento sempre se falava que era uma cidade insegura. Ah, isto é muito inseguro, prefiro andar em Chelas às cinco da manhã do que no Entroncamento à uma da manhã. Havia muito esta conversa. Portanto, esta falsa sensação que ele traz de insegurança, de que ele vai ser um tipo qualquer com uma espada, como se fosse, sei lá, o Rambo, isso também ajudou a ganhar tração.
Depois temos de olhar para as pessoas do Entroncamento, para uma cidade que se sente extremamente abandonada, tal como a população do Algarve. São pessoas que veem as suas expectativas sucessivamente defraudadas, que estão sempre em trabalhos muito duros e difíceis, a ganharem ordenados que não dão para muita coisa. Quando têm estas frustrações, as pessoas acabam por ser muito permeáveis a este tipo de discurso.
O filme foi filmado em 2022 e já estava construído, porque, de certa maneira, eu sabia que, mais tarde ou mais cedo, isto acabaria por acontecer. Por isso, é importante percebermos o que se passa nestes tipos de cidades, porque não é só no Entrocamento que estas frustrações existem, e não são apenas as pessoas do Entrocamento que são permeáveis a este tipo de discurso.
O que me está a assustar muito neste momento são pessoas de outros quadrantes políticos estarem a ser permeáveis a este tipo de discurso. Este retrocesso, com esta proposta para as leis para as pessoas trans, etc., é uma coisa assustadora, é uma coisa reacionária e não foram as pessoas do Entroncamento que votaram a favor destas leis. São pessoas de quadrantes de partidos que se dizem, ou se intitulam, de moderados.
Sentes esse discurso mais polarizado, radicalizado, à medida que vais revelando o filme e o conteúdo do filme?
Não em relação ao filme, porque acho que o filme não é assim tão vocal de um ponto de vista político. O filme trabalha uma sensação, já que agora se já fala muito de sensações. Gosto de olhar para o filme, em primeiro lugar, como uma experiência, como uma experiência de sensações de tensão, de conflito, de adrenalina. Gosto de trabalhar o filme de um ponto de vista de sensações e emoções, por isso gosto muito de meter música no filme, por isso gosto de trabalhar com a Leonor Teles, porque faz um trabalho muito bom na fotografia, de pensar na cor, etc., que cor é que vamos pôr aqui, como é que vamos enquadrar…
Depois tem este lado humano do indivíduo, estarmos a olhar para aquelas pessoas enquanto indivíduos e estarmos a ver os conflitos deles, mais até do que quais são os seus lugares sociais, ou o espaço social que eles ocupam.
Pode ser que o filme, em vez de estar a polarizar, faça precisamente o oposto, de fazer com que as pessoas se identifiquem umas com as outras e dar pontos de vista que, hoje em dia, parecem estar completamente esquecidos, postos de lado, o ponto de vista de que as outras pessoas também são pessoas, também têm problemas como eu tenho. Se calhar temos de começar a olhar para as coisas desta maneira, em vez de dizer porque é cigano, porque é indiano, porque é etc., se calhar temos de olhar para as pessoas e perceber que as pessoas também são pessoas. Eu acho que o cinema deve ter esse poder.