19 Ago 2023

Lançado em maio, “A História de Kerala” é um de vários filmes indianos onde os muçulmanos são criticados e em que são difundidas mensagens de propaganda, o que faz temer que a indústria de Bollywood se esteja a tornar um instrumento de manipulação antes das eleições do próximo ano. O trailer descreve um filme sobre “raparigas inocentes, presas e traficadas para se tornarem terroristas” e diz ter sido “inspirado por muitas histórias verdadeiras”.

O drama hindi, que conta a história de uma mulher convertida ao Islão e depois radicalizada, é o segundo filme hindi com maior bilheteira em 2023.

Os seus críticos acreditam que, tal como outros filmes recentemente lançados, “A História de Kerala” esteja a vender mentiras destinadas a colocar as comunidades umas contra as outras no período que antecede as eleições nacionais de 2024.

“Sugiro que todos os partidos políticos aproveitem o meu filme (…) e que o utilizem para os seus próprios fins políticos”, declarou o realizador Sudipto Sen à AFP, quando questionado sobre a sua própria filiação política.

Na Índia, onde há uma longa história de censura cinematográfica, muitos críticos estão preocupados com o facto de Bollywood estar a produzir cada vez mais filmes tingidos com a ideologia nacionalista hindu defendida pelo partido do primeiro-ministro Narendra Modi.

 

Eles “incutem o ódio”

“Os indianos adoram o cinema, um meio de comunicação inigualável para as massas”, sublinha a jornalista e escritora Nilanjan Mukhopadhyay. Durante o mandato de Modi, muitos filmes difundiram mensagens de divisão, reforçando os preconceitos difundidos pelos líderes políticos, disse à AFP. “Estes filmes, tal como eles, incutem ódio na população (…) e são dirigidos contra as minorias religiosas”, acrescenta.

A estreia de “A História de Kerala”, em maio, coincidiu com as eleições no Estado de Karnataka, no sul do país. Os resultados, que foram amplamente contestados pelo Partido Bharatiya Janata (BJP) de Modi, provocaram conflitos que culminaram na morte de uma pessoa.

Modi referiu-se ao filme num comício, enquanto acusava o Partido do Congresso, o seu principal opositor, de “apoiar tendências terroristas”.

De acordo com os seus detractores, o filme de baixo orçamento utiliza referências a chamada “jihad do amor”, anúncios informativos sobre muçulmanos que seduzem mulheres hindus para as conquistar para a causa terrorista islâmica.

A produção acabou por recuar na afirmação falsa de que 32 mil mulheres hindus e cristãs de Kerala tinham sido recrutadas pelo grupo jihadista Estado Islâmico.

 

Um plano orquestrado

Os membros do BJP de Modi organizaram projecções gratuitas do filme que, segundo o porta-voz do partido, Gopal Krishna Agarwal, faziam parte de um “plano de comunicação”.

“Como comunicam a vossa ideologia? Como comunicam a vida e a história do vosso líder e as suas actividades? É assim que o fazemos (…) As equipas do partido fazem-no individualmente”, disse Agarwal à AFP.

Para promover o filme, os governos de dois estados governados pelo BJP chegaram mesmo a reduzir os impostos sobre os bilhetes.

Segundo o realizador, o seu filme “tocou um ponto sensível” na Índia, onde vive uma das maiores populações muçulmanas do mundo, cerca de 14% dos 1,4 mil milhões de habitantes. “Acredito no poder da verdade, a verdade que contámos no filme, e é isso que as pessoas querem ver”, afirmou à AFP.

“A História de Kerala” rompe com os tradicionais musicais de Bollywood e segue a tendência recente onde os estúdios lançam filmes sobre crime, guerra e espionagem, exaltando o nacionalismo de heróis geralmente hindus que lutam contra inimigos fora ou dentro da Índia.

“O cinema sempre foi usado como propaganda, Hollywood não o faz?”, recorda o realizador Sudhir Mishra, citando “Rambo”, com Sylvester Stallone. “Acho mesmo que Bollywood está a ser atacada e acusada”.

“The Accidental Prime Minister”, um filme biográfico crítico de Manmohan Singh, o antecessor e rival de Modi, foi lançado apenas alguns meses antes das eleições de 2019. O lançamento da hagiografia “PM Narendra Modi” foi adiado pela Comissão Eleitoral para depois das eleições.

Por outro lado, o próximo filme “Godhra” é baseado na história verídica de um incêndio num comboio em 2002, no qual morreram 59 peregrinos hindus. A tragédia desencadeou motins inter-religiosos que causaram a morte de mais de mil pessoas, a maioria das quais muçulmanas. A fronteira entre factos e propaganda esbate-se quando o trailer do filme sugere que se tratou de uma “conspiração”.

A reação às críticas externas também tem sido intensa. Um documentário recente da BBC sobre o papel de Modi na violência foi bloqueado no país e amplamente descrito como “propaganda hostil e lixo anti-Índia”.

O fenómeno da propaganda nacionalista indiana em Bollywood chegou mesmo a Portugal. Na passada semana estreou, em algumas salas, o filme “Gadar 2”, que decorre durante um dos inúmeros conflitos armados entre a Índia e o Paquistão e onde se exalta o heroísmo hindu perante o inimigo.

  • CINEMAX - RTP c/ AFP
  • 19 Ago 2023 09:55

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