“Un bon petit soldat” disseca a brutalidade do mundo empresarial
Stéphane Brizé coloca Alba Rohrwacher como uma diretora de recursos humanos encurralada entre a ética pessoal e as exigências de um sistema concebido para a produtividade a qualquer custo.
No seu décimo primeiro filme, o realizador francês Stéphane Brizé prossegue a exploração do mundo do trabalho e das relações de poder económico, depois da trilogia social composta por “A Lei do Mercado” (2015), “Em Guerra” (2018) e “Um Outro Mundo” (2021).
“Un bon petit soldat” acompanha Carla Moretti (Alba Rohrwacher), recentemente contratada como diretora de recursos humanos numa companhia de seguros. Perante um caso de gestão tóxica, tenta resolver a situação através de um compromisso, sem se comprometer perante a hierarquia, para quem apenas contam os resultados económicos da empresa.
“O sistema capitalista, na sua brutalidade, foi inventado por homens há muito tempo”, explicou Stéphane Brizé durante a conferência de imprensa de apresentação do filme em Veneza. “Se hoje as mulheres são toleradas e aceites em posições de poder, isso acontece segundo as regras do sistema dominante”, acrescentou.
Segundo o realizador, “este sistema obriga homens e mulheres a revelarem a pior parte da sua humanidade e, nesse momento, penso que se tornam seres que se perdem. É aí que se torna muito interessante contar essa história”.
Ao contrário dos seus anteriores filmes, em que os protagonistas eram homens, a narrativa centra-se desta vez numa personagem feminina. “Esta mulher interpretada pela Alba, se tem estas responsabilidades na sua idade, não é pela generosidade dos homens, mas porque eles foram obrigados a aceitá-la”, esclarece o cineasta. “Aceitaram-na segundo as regras da brutalidade que tinham estabelecido anteriormente”, concluiu.
Vincent Lindon, ator fétiche de Stéphane Brizé, interpreta desta vez um papel secundário, o de diretor-geral da empresa, um homem brutal e desprovido de afeto, obcecado com os resultados financeiros que considera mais importantes do que o bem-estar dos trabalhadores, apesar de procurar transmitir a imagem de uma empresa inclusiva.
Foto: Aleksander Kalka – Cortesia Archivio Storico La BIennale di Venezia