Wim Wenders: os cineastas devem manter-se afastados da política
Os filmes podem mudar o mundo, mas não de forma política, afirmou o realizador alemão, presidente do júri na 76.ª edição do Festival de Cinema de Berlim que hoje começa na capital alemã.
O realizador alemão Wim Wenders afirmou esta quinta-feira, no arranque do Festival de Cinema de Berlim, que os cineastas devem manter-se afastados da política e concentrar-se em mudar a forma como as pessoas pensam.
Conhecido por ter uma orientação mais politizada do que os seus congéneres de Veneza e Cannes, o festival tem sido repetidamente criticado por ativistas pró-palestinianos por não adotar uma posição explícita em relação a Gaza — ao contrário do que aconteceu com a guerra na Ucrânia e a situação no Irão.
Questionado sobre a posição do governo alemão em relação a Gaza, Wenders respondeu: “Temos de ficar fora da política, porque, se fizermos filmes deliberadamente políticos, entramos no campo da política — e o nosso papel é ser o contrapeso à política.”
A resposta da Alemanha à guerra em Gaza tem sido criticada por ser demasiado cautelosa, em grande parte devido ao sentimento persistente de culpa pelo Holocausto nazi.
Falando aos jornalistas no festival, onde preside ao júri internacional de sete membros, o cineasta de 80 anos afirmou: “Temos de fazer o trabalho das pessoas, não o trabalho dos políticos.”
A transmissão em direto da conferência de imprensa foi interrompida pouco depois da pergunta sobre Gaza, levando a jornalista que a colocara a acusar o festival de censura. A organização pediu desculpa, alegando “problemas técnicos”, e prometeu disponibilizar a gravação completa online.
Wenders, cuja carreira cinematográfica inclui “As Asas do Desejo”, lançado há quatro décadas, e o mais recente “Dias Perfeitos” (2023), descreve a experiência de estar no júri em Berlim como única. “Porque em Berlim temos a certeza de ver mais facetas do mundo do que em qualquer outro festival. E essa é a grande força da Berlinale”, disse o realizador.
A organização tem enfrentado repetidas perguntas sobre Gaza e apelos ao boicote por parte de grupos pró-palestinianos.
A cerimónia de encerramento de 2024 foi alvo de críticas de políticos alemães, depois de vários vencedores terem manifestado solidariedade com os palestinianos e criticado as ações de Israel após o ataque de 7 de outubro de 2023, levado a cabo pelo grupo militante palestiniano Hamas.
“Os filmes podem mudar o mundo — mas não de forma política. Nenhum filme mudou realmente a opinião de um político. Mas podemos mudar a ideia que as pessoas têm sobre como devem viver”, afirmou o cineasta.
O festival começa na noite desta quinta-feira com o filme de abertura “No Good Men”, da afegã nascida no Irão, Shahrbanoo Sadat. Termina a 21 de fevereiro, com a cerimónia em que Wenders e o júri irão atribuir o Urso de Ouro a um dos 22 filmes em competição.
Quatro membros do júri deste ano vêm da Ásia: Min Bahadur Bham, realizador do primeiro filme nepalês em competição no festival; a atriz sul-coreana Bae Doona; o realizador, produtor e arquivista indiano Shivendra Singh Dungarpur; e Hikari, que recentemente dirigiu o drama “Família de Aluguer”. O realizador norte-americano Reinaldo Marcus Green, cujo drama biográfico “King Richard” recebeu seis nomeações para os Óscares, e a produtora polaca Ewa Puszczynska completam o júri.
Entre os 22 filmes em competição, estão títulos com nomes familiares para o grande público. Entre eles estão Channing Tatum no drama criminal “Josephine” — segunda longa-metragem da jovem realizadora Beth de Araujo — e Juliette Binoche em “Queen at Sea”, um drama familiar sobre a demência.
“Parece uma seleção bastante virada para a arte, com muitos filmes politicamente relevantes, mas sem grandes estrelas de Hollywood”, afirma Scott Roxborough, diretor do gabinete europeu da publicação norte-americana “The Hollywood Reporter”. Muitos dos títulos, sobretudo os da competição principal, “destinam-se mais a cinéfilos do que ao público em geral”, acrescentou em declarações à Reuters.
O falso documentário “The Moment”, da cantora pop Charli XCX dividiu a crítica, mas deverá agradar aos fãs do chamado “Brat summer” — um estilo de vida despudorado inspirado no seu álbum Brat, de 2024.
Já Pamela Anderson, estrela de “Marés Vivas”, vai promover “Rosebush Pruning”, de Karim Aïnouz, acompanhada por uma nova geração de atores, incluindo Riley Keough, Elle Fanning e Callum Turner.
Para os organizadores do festival, a diversidade de vozes menos conhecidas e de novos talentos é essencial para a identidade da Berlinale. As escolhas mais arrojadas deste ano incluem “Soumsoum, the Night of the Stars”, um filme passado no Chade sobre uma adolescente mística; “Moscas”, do realizador mexicano Fernando Eimbcke; e “In a Whisper”, de Leyla Bouzid, protagonizado pela atriz palestiniana Hiam Abbass.
Entre as celebridades esperadas em Berlim para apresentar os seus projetos mais recentes destacam-se ainda Amanda Seyfried, Sandra Hüller, Ethan Hawke, Neil Patrick Harris, Bella Ramsey, Sam Rockwell, Juno Temple, Zazie Beetz e Gemma Chan.
Michelle Yeoh, vencedora de um Óscar por “Tudo em Todo o Lado ao Mesmo Tempo”, receberá o Urso de Ouro Honorário de carreira durante a cerimónia de abertura, a 12 de fevereiro.
A realizadora Chloé Zhao, cujo drama shakespeariano “Hamnet” está nomeado para oito Óscares, também marcará presença para entregar um prémio ao compositor britânico Max Richter.