Colin Firth e Taron Egerton — uma saborosa aventura que sabe sustentar e defender as personagens


joao lopes
19 Fev 2015 0:40

Que acontece em "Kingsman: Serviços Secretos"? Nada de especial, apetece dizer… Afinal de contas, não vimos já infinitas variações sobre o "mau-muito-mau", neste caso Richmond Valentine (Samuel L. Jackson), empenhado em facultar Internet de borla a toda a gente e, pelo caminho, conquistar o planeta Terra? E não é Harry Hart (Colin Firth) uma variação mais ou menos óbvia sobre o modelo clássico do agente secreto 007?

Tudo isso é verdade. Faz mesmo parte das convenções mais universais das aventuras de agentes especiais a perseguir criminosos mais ou menos dados à perversa globalização dos seus poderes. E, no entanto, "Kingsman: Serviços Secretos" é um delicioso e contagiante espectáculo, feito com a inteligência metódica de quem sabe que o filme se sustenta, não pela banal acumulação de efeitos especiais, mas sim pelo sábio equilíbrio das suas estruturas dramáticas e soluções narrativas (… incluindo os efeitos especiais).

Partindo de uma série de histórias de banda desenhada, da autoria de Dave Gibbons e Mark Millar, o realizador Matthew Vaughn constrói um espectáculo que vive, antes do mais, de uma premissa eminentemente moral: ao tentar reparar o acidente que vitimou um dos seus homens, Hart assume-se como anjo da guarda do seu filho Eggsy (Taron Egerton), acabando por acolhê-lo como candidato a um lugar na organização Kingsman; a partir daí, a aventura desenvolve-se, não como uma mera acumulação de cenas de "acção", mas sim como uma trajectória dramática em que cada um procura o papel que lhe garanta um lugar na dinâmica do colectivo — isto sem esquecer que, desta vez, o drama desemboca numa sofisticada ironia e, por fim, nos sabores peculiares da comédia. 
Daí o constante ziguezague, sustentado por um argumento muito sóbrio e uma lógica de montagem que sabe valorizar os contrastes (próximo/distante, lento/rápido, concreto/abstracto, etc.), que vai transformando "Kingsman: Serviços Secretos" num verdadeiro bailado de contrastes. Tudo isto sem nunca perder de vista que é a partir das personagens, não contra elas, que a aventura se constrói. Aliás, Vaughn é também um excelente director de actores, sendo de destacar, para além dos nomes já citados, a presença emblemática de Michael Caine, também ele, noutros tempos ("Get Carter", 1971), figura emblemática de histórias mais ou menos enredadas com as convulsões da Lei e da Ordem.

+ críticas