Um conto moral japonês
Hirokazu Kore-eda é um cineasta japonês que continua a marcar presença nas salas do nosso país; o seu filme mais recente, "O Terceiro Assassinato", aborda de forma especialmente subtil a investigação de um crime.

Há filmes que nos convocam através de modelos conhecidos, acabando por nos surpreender pelo modo como transfiguram e superam as regras desses modelos. "O Terceiro Assassinato", escrito e realizado pelo japonês Hirokazu Kore-eda, é um desses filmes — começa como um policial, desenvolve-se como um drama de tribunal, desembocando, enfim, num subtil e perturbante conto moral.
Em princípio, a personagem central é Misumi (Koji Yakusho), acusado de matar o patrão. E faz sentido dizer em princípio porque, de facto, a pouco e pouco, é o advogado de defesa Tomoaki Shigemori (Masaharu Fukuyama) que vai adquirindo o lugar central da intriga. Porquê? Porque ele próprio não sabe como lidar com o seu cliente…
O filme coloca o problema como uma espécie de efeito perverso da cena inicial, em que nos é mostrado o assassinato perpetrado por Misumi. Digamos, para simplificar, que Kore-eda consegue mesmo instalar uma dúvida sobre a verosimilhança da abertura do seu filme. De tal modo que essa dúvida atinge, inevitavelmente, a visão do próprio Shigemori.