A história improvável por detrás de “Coward”, candidato à Palma de Ouro
Na véspera da entrega dos prémios da 79.ª edição do Festival de Cannes, o cineasta belga Lukas Dhont defende a arte e a sensibilidade como mecanismos essenciais de sobrevivência e evasão em cenários traumáticos.
“É completamente surreal”, afirmou Emmanuel Macchia à AFP, poucas horas antes da apresentação de “Coward” no Festival de Cannes, filme que acompanha a paixão secreta entre dois jovens soldados no caos dos campos de batalha belgas durante a Primeira Guerra Mundial.
Aos 20 anos, Macchia nunca tinha representado no teatro nem participado num filme. A experiência de rodagem mudou-lhe profundamente a vida. “Foi realmente outro mundo, uma descoberta. Tentei retomar os estudos de arquitetura, mas tornou-se impossível”, confessou.
A presença magnética do jovem ator em “Coward”, terceira longa-metragem do realizador belga Lukas Dhont, nasceu de um acaso. O cineasta e o diretor de casting percorriam os arredores da escola de arquitetura onde Macchia estudava à procura do protagonista do filme.
“Fez-me rir vê-los naquele sítio perdido. Viram-me sorrir e vieram falar comigo sobre o filme”, recordou.
Para preparar o papel, Macchia participou em treino militar, aulas de História, dança, canto e exercícios com cavalos utilizados pelo exército: “Tivemos dois dias de formação militar, aulas de História, dança, canto e treinos com cavalos militares”, explicou o ator, que pouco sabia sobre a Primeira Guerra Mundial e desconhecia totalmente a existência de soldados que se travestiam e atuavam para entreter as tropas.
“Não fazia ideia de que havia soldados belgas que se vestiam de mulher e não percebo porque é que isso foi escondido”, acrescentou.
A ideia do argumento surgiu quando Lukas Dhont encontrou uma fotografia de soldados da Primeira Guerra Mundial que tinham improvisado saias com sacos de areia e criado jóias com munições.
“Depois descobrimos muitas outras fotografias destes homens que, logo atrás das trincheiras, organizavam pequenos espectáculos para os outros soldados, sabendo que talvez fosse o último espectáculo que veriam nas suas vidas”, explicou o realizador de 34 anos.
Dhont admitiu ter ficado profundamente emocionado ao perceber que, mesmo em circunstâncias extremas, aqueles homens recorriam à imaginação como forma de evasão.
“Enquanto jovem criador, tocou-me muito perceber que, mesmo nessas condições, aqueles homens continuavam a tentar escapar através da imaginação, a usá-la como refúgio”, declarou.
O cineasta estabeleceu ainda um paralelo com um vídeo recente publicado nas redes sociais por um jovem pianista na Ucrânia: “Ele está a tocar piano e, de repente, ouvem-se explosões a poucos metros. Parece que o edifício está a desabar e a primeira coisa que ele faz é continuar a tocar”.
“É um pouco tudo o que nos resta nestes momentos de violência, brutalidade e trauma: tentar sobreviver, tentar continuar a viver.”
A Palma de Ouro da 79.ª edição do Festival de Cannes será atribuída na cerimónia de encerramento de sábado.