“Minotaur”: drama russo com a guerra por perto
Após recuperar de um coma que quase lhe retirou a vida, Andrey Zvyagintsev assina sua a primeira obra rodada fora da Rússia, um retrato social onde a guerra na Ucrânia se torna indissociável da narrativa.
O realizador russo Andrey Zvyagintsev instalou-se em França após ter sido tratado na Europa dos graves problemas de saúde provocados por uma reação extrema à vacina russa contra a Covid-19. Foi aí que escreveu “Minotaur”, posteriormente rodado em Riga, na Letónia, já que filmar na Rússia se tornou impossível.
“Estive às portas da morte. Posso quase dizer que passei para o outro lado. E, do outro lado, percebi que não era assim tão interessante”, afirmou o realizador, que apresenta o novo filme nove anos após “Loveless – Sem Amor”, distinguido com o Prémio do Júri em Cannes em 2017.
“A pandemia afetar profundamente. Fiquei preso à cama. Não conseguia mexer as mãos nem as pernas”, recordou. O cineasta, de 62 anos, revelou à AFP que esteve em coma e incapaz de andar durante quase um ano.
Em “Minotaur”, a protagonista, Galina, sente-se sufocada pela rotina conjugal e parece manter uma relação extraconjugal o que leva o marido a contratar alguém para a investigar.
Concluído em 2023, o argumento decorre poucos meses após o início da guerra na Ucrânia, em plena mobilização de recrutas enviados para a frente de combate. O filme retrata uma sociedade em que dirigentes políticos e económicos condenam à morte os cidadãos considerados menos úteis, preservando aqueles que continuam produtivos para a economia russa.
“É impossível filmar um conto de fadas, ou um melodrama, desligado de contexto social ou político. Foi assim que a guerra se infiltrou no nosso filme”, explicou Zvyagintsev.
Trata-se da primeira vez que o realizador filma fora da Rússia, país onde acredita que o filme dificilmente será exibido devido à sua posição assumidamente anti-guerra.
“Tal como está, o filme não obterá autorização de distribuição”, antecipou. Ainda assim, acredita que acabará por circular clandestinamente: “Na Rússia, a pirataria continua muito ativa, por isso todos os que quiserem vê-lo acabarão por vê-lo.”
“Quem acredita que está na altura de pôr fim a este inferno, que isto é um pesadelo e uma catástrofe para a Rússia, verá o filme com lucidez e em solidariedade com os seus autores. E essas pessoas serão muitas”, afirmou.
O ator principal, Dmitry Mazurov, continua a viver e a trabalhar em Moscovo. Para ele, “na arte, no teatro e no cinema não existem fronteiras nem territórios, existe apenas um mundo comum: o da arte”.
Mazurov gostaria de ver “Minotaur” exibido na Rússia, onde, garante, “toda a gente sonha vê-lo”.
Andrey Zvyagintsev é um dos cineastas contemporâneos russos mais reconhecidos internacionalmente e os seus três filmes anteriores foram distinguidos no Festival de Cannes.