Clooney em Veneza: “É cada vez mais difícil discernir a verdade”
O ator norte-americano foi homenageado com um Leão de Ouro pela sua carreira. Numa conferência de imprensa Clooney alertou para os desafios que a inteligência artificial coloca a jornalistas, governos e ao público.
Durante uma intervenção no Festival de Cinema de Veneza, onde recebeu um Leão de Ouro de carreira, o ator, realizador e ativista político afirmou que a tecnologia de deepfake e os conteúdos gerados por IA estão a minar a confiança na informação.
“É cada vez mais difícil discernir a verdade”, disse Clooney aos jornalistas, acrescentando que o desenvolvimento desta tecnologia poderá levar as pessoas a duvidar de provas genuínas. “Pior ainda, porque se envenena a possibilidade de dizer ‘talvez isto seja verdade’, ‘talvez não seja’, quando vemos coisas reais que são mesmo verdadeiras, as pessoas podem dizer: ‘Bem, isso é falso’.”
O vencedor de dois Óscares, que também recebeu distinções pelo seu trabalho em campanhas de promoção da justiça, afirmou ter-se reunido recentemente com responsáveis pelo desenvolvimento de IA e mostrou-se pouco convencido de que as medidas de proteção sejam suficientes para acompanhar a evolução da tecnologia.
“Todos estão a trabalhar arduamente nisso e ainda não vi grandes progressos em termos de resultados”, afirmou, brincando que não gostaria de imaginar a sua imagem a ser utilizada depois da sua morte. “Gostaria de evitar aparecer num anúncio de tampões 20 anos após morrer”, disse.
O actor relacionou o desafio colocado pela IA com preocupações mais amplas sobre o jornalismo, afirmando que a propriedade dos meios de comunicação se concentrou nas mãos de um pequeno número de indivíduos muito ricos. “As pessoas mais ricas do mundo são atualmente proprietárias do Washington Post, do Twitter e da maioria dos lugares onde obtemos a nossa informação, e isso é preocupante”, afirmou, referindo-se, respetivamente, a Jeff Bezos e Elon Musk.
“O estado do jornalismo está sempre a mudar, sempre a ser desafiado”, disse. “Mas acredito que a informação acabará por encontrar uma forma de sair.”
Clooney mostrou-se também cético em relação à proposta de aquisição da Warner Bros. pela Paramount, afirmando que a concentração dos meios de comunicação conduz frequentemente à perda de postos de trabalho e é difícil de concretizar. “Não vejo como, financeiramente, isto acaba por fazer sentido… mas veremos.”
Clooney esteve em Veneza para receber a principal distinção de carreira do festival, depois de quase três décadas de presenças regulares no Lido, desde a estreia de “Romance Perigoso” em 1998.
Refletindo sobre a atribuição do prémio aos 65 anos, Clooney brincou que envelhecer traz inevitavelmente alguma melancolia. “Tudo é melancólico”, afirmou. “Lavas os dentes e pensas: ‘Os meus dentes eram muito mais bonitos’.”
Foto: Jacopo Salvi – Cortesia do Archivio Storico La Biennale di Venezia