Doutrinação russa exposta em “Mr. Nobody Contra Putin”
O filme rodado em segredo por um professor estreia-se esta semana em Portugal e revela imagens da propaganda estatal nas escolas primárias da Rússia.
As salas de cinema portuguesas recebem esta semana um testemunho sobre a realidade russa contemporânea. “Mr. Nobody Contra Putin”, com realização do norte-americano David Borenstein e do russo Pavel Talankin, mergulha no sistema de ensino da Federação Russa para expor o que os autores descrevem como uma lavagem ao cérebro institucionalizada.
O projeto, que conquistou uma nomeação para os Óscares e um prémio BAFTA, nasceu da coragem de um “zé-ninguém” — o professor Pavel Talankin — que decidiu subverter as ordens do regime a partir do interior.
Talankin trabalhava numa escola primária em Karabash, uma pequena cidade industrial e poluída. A sua função oficial incluía o registo em vídeo das sessões de “educação patriótica”. Denominadas “Conversas sobre Coisas Importantes”, tornaram-se obrigatórias em 2020 e sofreram um reforço drástico após a invasão da Ucrânia em 2022.
Sob o pretexto de promover a unidade nacional, o documentário mostra crianças instruídas em valores nacionalistas e militaristas. A estética recupera a iconografia dos antigos “Pioneiros” soviéticos, mas com uma nova capa ideológica.

O processo de produção assemelhou-se a uma operação de espionagem. Talankin captava as imagens na sala de aula e enviava os ficheiros através de canais encriptados para Borenstein, que editou o material a partir da Dinamarca.
A normalidade quotidiana dos alunos em contraste com a gravidade do discurso oficial é um dos pontos centrais da obra que destaca ainda a promoção de modelos familiares conservadores, ferramenta que o regime utiliza para consolidar o controlo social desde a infância.
A ironia trágica em “Mr. Nobody Contra Putin” reside no facto de quase todos os figurantes — desde colegas professores à própria mãe de Talankin — aparecerem no ecrã convictos de que servem o Estado com abnegação. Apenas o olhar crítico do realizador transforma aquele registo institucional numa prova de dissidência.
Ciente dos riscos que enfrentaria pela divulgação deste material, Pavel Talankin abandonou a Rússia após a conclusão do filme. Vive hoje em paradeiro desconhecido no Ocidente.