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  • Frederick Wiseman
  • , 1930-2026

17 Fev 2026

Percorrendo com o dedo um mapa de qualquer cidade norte-americana, encontramos lugares familiares: a loja, a escola, a câmara municipal, o jardim zoológico, o bailado, o ginásio, o hipódromo, o parque e o tribunal.

Cada um destes foi tema de um documentário de Frederick Wiseman, realizados ao longo de uma carreira de seis décadas e cerca de 50 filmes — explorações imersivas e imparciais sobre o funcionamento das instituições, as pessoas que nelas trabalham e as que nelas são afetadas.

Poucos conheceram tão intimamente e refletiram com tanta profundidade sobre estes locais quotidianos como Wiseman.

O prolífico realizador, que documentou dezenas de instituições nos Estados Unidos — e algumas no estrangeiro —, morreu pacificamente na segunda-feira, segundo um comunicado da Zipporah Films, a distribuidora que fundou. A causa da morte não foi revelada.

Sonhos de realidade

Wiseman era um observador. Nos seus filmes não havia narração explicativa; as pessoas não se sentavam para entrevistas com iluminação estudada; quando havia música, era diegética — parte da cena, nunca adicionada em pós-produção.

As suas câmaras captavam a realidade — 200 horas de material bruto não eram incomuns — que o montador, normalmente o próprio Wiseman, condensava depois num filme.

“O público é colocado no meio dos acontecimentos e convidado a pensar sobre a sua própria relação com o que está a ver e ouvir”, disse à Documentary Magazine em 1991. “São convidados a interrogar-se sobre as razões pelas quais selecionei e organizei o material desta forma.”

Os seus documentários raramente tiveram estreias amplas; nenhum foi um sucesso de bilheteira. À parte algumas exibições ocasionais na televisão pública, o público tinha de procurá-los em festivais, universidades, ou cinemas independentes.

O financiamento nem sempre era certo. Wiseman recorreu ao Kickstarter para “In Jackson Heights” — sobre um bairro multicultural de Nova Iorque —, mas a campanha ficou aquém do modesto objetivo de 75 mil dólares.

O filme acabou por ser realizado em 2015 e recebeu algumas das melhores críticas da carreira do realizador. O crítico Matt Zoller Seitz descreveu-o como “quente e atento”.

A sua obra insere-se num género conhecido como direct cinema, análogo ao cinéma vérité francês.

Os entusiastas compararam os seus filmes a romances penetrantes. “Já ninguém fala seriamente em escrever o Grande Romance Americano, mas Wiseman pertence a uma geração que o fazia, e o seu corpo de trabalho… representa o equivalente contemporâneo mais próximo que consigo imaginar”, escreveu Mark Binelli na New York Times Magazine em 2020. Wiseman chamava-lhes “sonhos de realidade” e “expressões da minha curiosidade”.

Captar o que se passa no mundo

Frederick Wiseman nasceu no dia de Ano Novo de 1930, em Boston, filho único de pais judeus — Jacob Leo Wiseman, advogado emigrado da Rússia, e Gertrude (nascida Kotzen), administradora no departamento de psiquiatria de um hospital pediátrico. Estudou e mais tarde ensinou Direito.

“Não gostava da escola de Direito porque o que tinha de ler era tão mal escrito”, disse à Metrograph Journal em 2016. “Detestava dar aulas tanto quanto detestava a escola de Direito.”

Serviu também no exército norte-americano — “felizmente” após o fim da Guerra da Coreia, contou ao Daily Telegraph — antes de se dedicar ao cinema.

A sua primeira longa-metragem, “Titicut Follies”, lançada quando tinha 37 anos, levou o público ao interior de uma prisão-hospital em Massachusetts para criminosos com perturbações mentais. Apesar de a exibição pública do filme ter ficado proibida  durante décadas por um litígio com o estado, ajudou a definir o seu estilo observacional.

“Pareceu-me o estilo adequado para filmar situações reais, onde não pedia a ninguém que fizesse algo especial para mim”, explicava em 2016. “A ideia sempre foi captar o máximo possível do que está a acontecer no mundo.”

Em “High School” (1968), seguiu alunos e professores em Filadélfia, num período de agitação social. Tal como “Follies”, faz parte do Registo Nacional de Filmes da Biblioteca do Congresso.”High School II” seguiu-se em 1994, filmado em Nova Iorque.

A PBS exibiu o seu terceiro filme, “Law and Order”, sobre a polícia de Kansas City, assim como “Domestic Violence” (2001), sobre um abrigo para mulheres.

“Trabalhar mantém-me fora das ruas”

Wiseman recebeu um Óscar honorário em 2016. “Os seus documentários magistralmente distintos examinam o familiar e revelam o inesperado”, dizia a citação da Academia.

“Estar constantemente a trabalhar mantém-me fora das ruas”, brincou ao aceitar o prémio. “Esta compulsão sempre foi compreendida pela minha mulher, Zipporah, e pelos meus filhos, David e Eric.” Batizou a sua produtora com o nome de Zipporah, professora de Direito que faleceu em 2021.

Outras distinções incluem quatro Emmys e prémios nos festivais de Cannes, Berlim e Veneza, bem como bolsas MacArthur e Guggenheim.

O jornalista Sean Cooper escreveu na revista Tablet, dedicada à cultura judaica, que “mesmo os mais críticos reconhecem que Frederick Wiseman é um génio, de algum tipo”.

Wiseman também se interessou por temas europeus. Retratou a vida dentro e fora do palco da Comédie-Française, o teatro parisiense de séculos de história, e aventurou-se na ficção com “The Last Letter”, passado num gueto judaico ucraniano durante a Segunda Guerra Mundial.

“Menus-Plaisirs — Les Troisgros” traçou o retrato de uma família de restauradores franceses. Com quatro horas de duração, é tão longo quanto uma refeição requintada — e tão rico.

Questionado sobre os seus filmes extensos, que colocam à prova a paciência de alguns espectadores, respondeu: “Faço-os com a duração que considero apropriada… Não sei como ter em conta o público.”

Outros filmes abordaram temas tão diversos como a National Gallery de Londres, o Canal do Panamá e a doença terminal.

“Cada filme é uma experiência diferente, com pessoas e situações que nunca vivi antes”, disse Wiseman. “Espero que, em cada caso, tenha aprendido algo.”

  • Reuters
  • 17 Fev 2026 14:42

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