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31 Mar 2026

“Romaria” é a terceira longa-metragem da realizadora espanhola Carla Simón. Após várias curtas, estreou-se nas obras de maior fôlego com “Verão 1993”, a história de uma menina que passa a viver no campo após a morte dos pais. O filme foi escolhido para representar Espanha nos Óscares de 2017. Seguiu-se “Alcarrás” (2022), outra narrativa sobre mudanças familiares em contexto rural da Catalunha, que valeu a Carla Simón o Urso de Ouro de melhor filme no Festival de Berlim.

Em “Romaria”, a cineasta encerra uma trilogia da memória e do seu cinema de inspiração autobiográfica, sobre identidade, pertença e reconciliação com o passado. Desta vez desloca o olhar para a Galiza, em 2004, e roda um argumento inspirado em experiências pessoais e na vida dos pais.

Marina, 18 anos, interpretada por Llúcia Garcia, viaja até Vigo para conhecer a família do pai biológico. Através dos relatos de familiares, tenta reconstruir a trajetória paterna e a história de amor que ele viveu com a mãe, mas esbarra nas memórias de conflitos ligados à toxicodependência que destruíram o casal. Tal como Marina, a protagonista do filme, também Carla Simón foi criada por familiares após a morte dos pais, vítimas de SIDA quando era ainda uma criança.

Na conferência de imprensa de apresentação do filme, durante o Festival de Cannes 2025, a realizadora explicou a dualidade do título “Romaria” e a sua faceta quase religiosa:

A palavra “Romaria” tem este significado místico, quase religioso, o de fazer uma viagem — e eu acho que a viagem da Marina [a protagonista] tem muito de místico, no sentido de compreender as suas raízes, e de se ligar emocionalmente aos pais, à história de amor que viveram, de perceber como foi essa história. Depois, tem outro significado, que descobri mais tarde e que se usa mais no norte de Espanha, que é o de festa popular. Gosto muito de festas populares, têm algo de tradição que gosto muito de retratar e também, de certa forma, encaixava no filme.

Apesar da raiz autobiográfica, Carla Simón sublinha que o aspeto ficcional de “Romaria” é preponderante:

Há muita ficção, porque é verdade que conheci parte da minha família paterna quando tinha mais ou menos a idade da Lucía, mas não toda, e conheci-os em Madrid, porque alguns viviam lá.

Esta viagem à Galiza fiz um pouco mais tarde. Acho que o filme tem algo das emoções que sentia, da curiosidade e também da frustração por não conseguir compreender de forma profunda como foi a história dos meus pais, porque já não estavam cá para a contar. É um pouco o motor do filme e totalmente real.

Depois, essa espécie de digressão familiar em cinco dias, isso não aconteceu assim. A estrutura familiar é diferente, a minha família é ainda maior do que a do filme. Portanto, há personagens muito ficcionadas e coisas que foram criadas para que a história funcionasse como tal.

Após ter abordado o tema em “Verão 1993”, Carla Simón regressa ao consumo de heroína e à subsequente crise da SIDA em Espanha nas décadas de 1980 e 1990. A realizadora contextualiza o fenómeno como o reverso sombrio da transição democrática após a ditadura franquista e defende a necessidade de resgatar a de uma geração que transformou os alicerces de uma sociedade profundamente conservadora:

A SIDA, em cada país, tem histórias diferentes. Há países em que, como nos Estados Unidos, esteve muito ligada à homossexualidade; no Reino Unido teve mais a ver com a imigração africana; e em Espanha teve tudo a ver com a crise da heroína. Tivemos esse momento feliz da transição, após tantos anos de ditadura, quando Franco morreu, um momento de liberdade absoluta, mas que, de certa forma, teve um lado B de que não se fala muito: entraram muitas drogas e havia teorias de que, enquanto os jovens estavam nas drogas, não estavam na política. Por isso, não se fez muito para travar essa entrada de heroína que, de repente, foi devastadora. Os jovens dessa época não sabiam as consequências, como nós sabemos agora. E então, de repente, chegou a SIDA e, com ela, muitas mortes.

Espanha foi o país com a taxa de SIDA mais alta de toda a Europa. Foi aí que percebi que isto não era só a minha história, ou a história dos meus pais, era a história de toda uma geração que, deixou de falar sobre isso e enterrou essa memória. Acho que é preciso trazê-la à luz, reivindicar essa geração que, no fundo, virou tudo do avesso e mudou os valores de uma sociedade muito conservadora e católica, tornando-a mais aberta.

Após duas longas-metragens no campo, “Romaria” move-se em direção ao mar, uma mudança de cenário que a realizadora sentia como necessária:

Sair para o mar dava uma sensação de liberdade que tinha muito a ver com o filme, com o meu pai, que gostava muito de navegar, e com aquele lugar específico, que é muito particular.

Os lugares quase serviram de guia para escrever o guião e para me ligar a toda a história. Filmar no mar tem um lado técnico complicado — os veleiros onde filmámos eram muito pequenos e não se pode filmar de qualquer maneira, porque tudo cai quando se está a navegar.

A questão era como adaptar a técnica para que os atores pudessem trabalhar com liberdade. Encontrámos formas, mas não foi fácil, era um verdadeiro puzzle. Às vezes era: “tu sais, eu entro”… os espaços eram minúsculos.

O recurso ao vídeo serviu para ligar Marina, a protagonista, às memórias dos pais e à geração perdida:

Foi muito bonito descobrir esse espaço que é a Galiza. Acho que tem quase uma dimensão mística, porque foi ali que os meus pais viveram a sua história de amor, mas há qualquer coisa no próprio território que te transmite isso. E tem algo de muito especial, as rias — o mar entra na terra — e uma costa muito difícil de controlar pela polícia, por onde entrou muita droga nos anos 80, com consequências devastadoras. Mas é uma paisagem muito particular.

Há também toda essa parte do filme filmada em câmara de vídeo, como se fosse a Marina a filmar, que para mim era uma forma muito direta de me ligar a esses lugares. O uso da câmara de vídeo nesses espaços vazios também tinha um sentido. Era quase uma forma de lembrar essa geração perdida de que pouco se fala. Na Galiza há muito isso de olhares para uma fotografia e alguém dizer: “Desta foto, só estes dois continuam vivos.”

Foi realmente uma época difícil — os jovens morriam muito. Os meus tios contam que todos os fins de semana havia um funeral: overdose, sida, acidentes de carro… Essa estrada que ligava os bares era palco de muitos acidentes. Colocar essa geração no seu lugar era, desde o início, a vontade do filme.

  • CINEMAX - RTP
  • 31 Mar 2026 20:08

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