Sylvain Chomet: “Marcel Pagnol viveu várias vidas numa só”
O realizador de "Belleville Rendez-Vous" regressa às longas-metragens com uma biografia animada onde optou pelo rigor histórico para resgatar as memórias de Marcel Pagnol.
O filme de animação “Marcel e Monsieur Pagnol” conduz-nos pela vida e obra do professor, escritor, dramaturgo e cineasta francês do século XX, Marcel Pagnol. A biografia em desenhos animados dá a conhecer quem foi Marcel Pagnol desde a infância. Os dramas, os sucessos, o caminho que percorreu até se tornar um dos mais prestigiados artistas franceses.
Sylvain Chomet, ilustrador e realizador de cinema, usou como referência o livro “A Glória do Meu Pai” e desenvolveu a narrativa colocando Marcel adulto em diálogo com o Marcel criança:
Quando comecei o filme, a dada altura, estava como Marcel Pagnol, quando estava perante uma folha em branco e tinha de começar a contar as memórias de infância. Estava na mesma situação em relação ao filme e perguntava-me, como vou contar esta história? Depois, a narrativa surgiu naturalmente.
Conheci Marcel Pagnol através do livro “A Glória do Meu Pai”, que é a história de Marcel quando tinha 10 anos e quando eu li o livro também tinha 10 anos e por isso identificava-me muito com ela. Assim, pensava que Marcel pensava naquele menino que brincava no campo, ia colocar armadilhas para apanhar animais e andava de calções. Tudo isso era magnífico para mim.
Inevitavelmente, não conseguia imaginar fazer o filme sobre Pagnol sem ter esse menino. Surgiu de forma natural. Pensei que seria engraçado tê-lo em criança e em adulto. Quando o Marcel adulto começasse uma conversa, o Marcel menino, faria recordar-lhe a sua vida. Seria um pouco como que se Marcel tivesse Alzheimer, já que as pessoas com essa doença não se lembram de coisas recentes, mas lembram-se de coisas da infância. Imaginem assim uma espécie de Alzheimer, como se fosse a infância, a criança, que lhe vai ditar o que deve escrever e o que vai contar sobre a sua vida.

Sylvain Chomet é um admirador de Marcel Pagnol. Teve contacto com a obra do romancista quando também ainda era pequeno. No filme, o realizador parte do momento em que Marcel Pagnol, já com mais de 60 anos, começa a escrever a trilogia “Memórias de Infância”:
O filme começa no momento em que ele está num vazio, em que já não faz mais nada. O momento da sua vida em que parece ter parado, é aí que tudo recomeça. Entra aquela espécie de máquina de retroceder no tempo, por meio de um movimento perpétuo. Na verdade, é um filme sobre o movimento perpétuo, ou seja, o movimento perpétuo dos objetos e também o movimento perpétuo da vida.
Na minha época, líamos Pagnol na escola, líamos “A Glória do Meu Pai” e “O Castelo da Minha Mãe”. Era fantástico, uma bela maneira de entrar no universo do artista, através das suas memórias. Se na época houvesse um filme sobre Marcel Pagnol, dizíamos, olha, vamos ver, ele fez um grande trabalho, quer nos filmes que realizou, quer nos romances que escreveu. Fez também teatro, era muito completo. Além disso, era alguém que vivia em sintonia com o seu tempo, alguém que adorava a tecnologia, adorava as novidades, as novas invenções. E o filme é a história de vida de um homem. É isso.
O filme de animação “Marcel e Monsieur Pagnol” conta a história verdadeira de um homem que se distingue pela notoriedade no mundo artístico, como dramaturgo e cineasta. Inclui, por exemplo, um excerto inédito do filme “La Prière aux étoiles”, de 1941, que Pagnol tinha destruído durante a guerra e que só agora foi descoberto. Apesar de muitas cenas do filme surpreenderem os mais conhecedores, o realizador e ilustrador Sylvain Chomet garante que foi fiel à realidade:
Há coisas que escrevi para completar o texto e para fazer avançar a história. Era mesmo necesssário acrescentar diálogos, mas ao estilo de Pagnol. Por isso, tudo o que é contado no filme é verdade. Não há uma única coisa inventada, as circunstâncias e os factos são verdadeiros. É engraçado porque as pessoas perguntavam-me: ‘a história da ovelha é verdadeira?’ Mas é claro que é verdadeira. Por que razão iria inventar isso? Há coisas inéditas, como o texto do final do filme, onde ele explica o que leva um homem a escrever.
Há também excertos de filmes inéditos que ele tinha destruído, mas que recuperámos as imagens. Quem conhece Marcel Pagnol vai ficar surpreendido. Há imensas coisas que são bastante surpreendentes. Fica-se a saber sobre a sua vida privada, sobre os dramas que porque passou, sobre a filha mais nova que morreu. É interessante não só para as pessoas que conhecem Marcel Pagnol, mas também para aquelas que não o conhecem. É a história de uma vida e ele teve uma vida plena, rica e muito bem preenchida. Sinceramente, viveu várias vidas numa só.

Os lugares por onde Marcel Pagnol passou, desde o sul de França, onde nasceu, até Paris, onde morreu, são recriados no filme de animação. O gabinete de trabalho de Pagnol é reproduzido ao pormenor. A visita aos espaços e as imagens de arquivo ajudaram o realizador a recuar no tempo e a mostrar as evoluções de época para época:
Começámos o filme em 1905 e vamos até 1974. Tínhamos de sentir a evolução através da cidade, dos carros que evoluíram e da moda. Até a moda masculina, a cada cinco anos, havia uma moda diferente. Os fatos mudaram muito. Além disso, naquela época, toda a gente estava bem vestida. Usavam fatos, as pessoas vestiam-se realmente muito bem. Por isso, tinha de ser tudo muito preciso no filme.
É a vida de Marcel Pagnol, passa-se entre Paris e Marselha, entre vários locais onde ele viveu. No sul de França, o Moinho, onde conheceu a última mulher, a Jacqueline, tinha de lá estar. O moinho ainda existe, por isso tinha essas referências.
Os estúdios Marcel Pagnol já não existem, e por isso foi um pouco complicado, porque não havia muitas fotos. Às vezes tive de improvisar. Por outro lado, há coisas como o escritório de Pagnol, onde se passa todo o início do filme. Tínhamos muitas referências para o recriar.
Quando o visitámos, gravámos vídeos e tirámos fotos. Assim, o escritório que se vê é mesmo o escritório de Marcel Pagnol, tal como o visitámos, pois não tinha sofrido alterações desde a sua morte. Ou seja, parecia que tinha entrado numa cápsula do tempo e estado em 1974. Foi muito comovente. No escritório, ainda lá está tudo. Até a pequena cama onde ele fazia a sesta. Está muito bem referenciado.
No filme, a voz de Marcel Pagnol é do ator Laurent Lafitte, que fez um trabalho intenso para ter um sotaque do sul de França e acompanhar o envelhecimento da voz da personagem.

Sylvain Chomet realizou “A Velha Senhora e os Pombos”, que recebeu em 1997 o BAFTA de Melhor Curta-metragem de Animação. Com “O Mágico”, foi o primeiro realizador a receber o César de Melhor Filme de Animação, criado em 2011. “Belleville Rendez-Vous” é outro filme que dirigiu e que também esteve nomeado para os Óscares. Agora, “Marcel e Monsieur Pagnol” é a terceira longa-metragem de animação que realiza e é a primeira com diálogos. O ilustrador quis trazer mais cor aos desenhos, comparando com trabalhos anteriores:
Não queria que o filme fosse triste em termos de cores, por isso fiz um desenho animado mais colorido. É mais colorido do que “Belleville Rendez-Vous” ou do que “O Mágico”. Queria mostrar essa época com cor, para explicar aos jovens que era uma época em que tudo se passava muito depressa e em que havia muitas cores. Não estão habituados a ver cor em imagens antigas e têm a impressão de que tudo era preto e branco. Porque é assim que aparece nos arquivos.
Queria mostrar o calor de Marselha, o sol. Queria que se parecesse um pouco com o sul de França. Tinha fotos de Marcel, de toda a gente e fiz caricaturas das pessoas, como costumo fazer. É tudo desenhado. Só há um pouco de 3D em alguns objetos, como, por exemplo, os carros. Fora isso, é tudo desenhado.
Sylvain Chomet encontrou na animação a melhor forma de falar de Marcel Pagnol. Para dar a conhecer aos mais jovens a história de vida do primeiro dramaturgo e cineasta francês convidado a integrar a Academia Francesa:
Para mim, fazer o filme em animação parecia-me mais lógico, porque era impossível trazer de volta à vida, ou encontrar atores que se parecessem com Raimu ou com Maci, com todas essas pessoas, ou mesmo Fernandel, que tinha uma aparência física realmente peculiar. Acho que funciona melhor com bonecos, por isso fizemos em animação.
As pessoas que gostam de Marcel Pagnol e conhecem o seu trabalho ficarão bastante surpreendidas com tudo o que lhe aconteceu na vida. Pagnol teve realmente uma vida de aventureiro e acho que isso pode ser, de facto, um exemplo para os mais jovens. É o exemplo da vida de um homem de verdade.
“Marcel e Monsieur Pagnol” é uma biografia em desenhos animados de uma figura marcante das artes que encontrou na escrita e no cinema os meios para contar as coisas simples da vida.
O filme estreou-se esta semana nas salas de cinema portuguesas.